Origens

Terra nossa que alimenta corpo e espírito


“Em que árvore nasce a massa? O leite com chocolate vem das vacas castanhas? As ovelhas tomam banho?” Estas são algumas perguntas das crianças quando chegam a ambientes rurais. O que está por detrás destas interrogações dos mais pequenos, que parecem cada vez mais distantes da realidade campestre?

O verde da natureza ajuda a descansar o olhar de quem vem do bulício da cidade. Estamos na Quinta Pedagógica de São Paulo, gerida pela Associação de Municípios da Região de Setúbal, no Parque Natural da Arrábida, Reserva da Biosfera da UNESCO. Os quarenta e sete hectares da quinta ampliam os horizontes de quem quer ver de perto o mundo natural.
Os animais, como galinhas, ovelhas, burros e vacas; a horta, com os vegetais que consumimos à mesa; o pomar, com as árvores de frutos que nos vitaminam; a confeção do pão, em ambiente rural, com a arte de preparar e amassar o que se vai tornar o alimento de cada dia, cozido em forno a lenha, fazem parte de uma realidade distante do quotidiano de muitos que habitam os centros urbanos.
O Afonso tem oito anos, frequenta o 2.º ano de escolaridade, e conta que é “a primeira vez” que vê uma horta. Em visita à quinta pedagógica com o seu ATL (Atividades de Tempos Livres), outras crianças lembram-lhe que o jogo eletrónico Minecraft também tem uma área de cultivo. Sair do mundo virtual para o mundo real é um desafio dos tempos modernos.


DISTANCIAMENTO DO MUNDO RURAL
Fábio Vicente, 40 anos, coordenador da quinta pedagógica de São Paulo, revela as interrogações apresentadas pelas crianças que visitam aquele espaço: “Algumas perguntas preocupam-nos, como, por exemplo, ‘qual é a árvore que dá a massa?’. Percebem que a massa é um alimento vegetal, mas não entendem que há uma transformação da farinha, do trigo, etc. Tentamos transmitir que aquilo que lhes chega ao prato tem um processo, uns mais naturais, outros mais transformados. As crianças vêm com dúvidas sobre a origem das coisas. ‘Como é que o leite da vaca nos aparece no pacote?’, outro exemplo. Não conhecem os processos intermédios, com os quais não têm contacto. Muitos não sabem que o leite vem das vacas.”
Pode parecer surpreendente, mas não é de estranhar, segundo Fábio Vicente, habituado a lidar com estas e outras questões dos mais pequenos: “A nossa sociedade está mais focada noutras coisas. A transmissão é muito simples, basta dizer que ‘o que tens neste pacote é de origem animal’, mas nós ainda temos tempo para isso? As conversas que temos vão noutros sentidos. É uma conversa simples, mas fica esquecida. As crianças vêm aqui, percebem e dizem: ‘Nunca me tinham dito isto.’ Nota-se que há um distanciamento com algumas noções.”
O trabalho que é desenvolvido nesta quinta é, também, o de ajudar a criança a saber posicionar-se no meio que a rodeia e a valorizar a sustentabilidade, transmitindo-se conceitos e valores, adaptados à idade, na preservação da natureza: “Incutimos o gosto pelo conhecimento, criando uma predisposição e empatia para com estes valores, com estas causas, para que no futuro se lembrem de como estar no mundo — não só nas questões naturais, mas também nos relacionamentos interpessoais. Usamos os animais e outros estádios que temos na quinta para fazer paralelismos com as nossas relações humanas de respeito, de garantia do espaço ao outro e da diferença”, elucida este responsável.

CASA COMUM

Entretanto, passa por nós mais um grupo de crianças. O entusiasmo é notório com o que se vê e ouve. Junto das ovelhas e das cabras escutam-se diferentes explicações. Um dos rapazes pergunta, antes de fazer uma festa à ovelha Maria: “As ovelhas tomam banho?”
Quando este conjunto de crianças se aproxima da horta e olha para o chão vê um carreiro de formigas. A tendência, para alguns dos miúdos, é pisá-las. Há uma chamada de atenção porque “os insetos são importantes para o ecossistema; não quero ninguém ao pontapé com as donas formigas, porque elas varrem o chão e deixam isto tudo limpinho”, explica Cláudia Pujol, 50 anos, que acompanha as visitas à quinta pedagógica.
“A tendência inicial é matar, não ter de lidar com esta relação entre mim e o inseto. Vivemos em ambientes cada vez mais limpos e arrumados e ficam stressados quando percebem que têm de ter esta relação. Há esta responsabilidade de lhes desmistificar os medos e perceberem que vivemos todos em comum. Muito importante nas visitas à quinta é entenderem a sua relação com os animais no seu todo, no micro e macromundo”, acrescenta.
Já a tínhamos escutado, anteriormente, a sensibilizar o grupo, junto do lago com os anfíbios, para não se atirarem pedras a sapos e rãs só pelo prazer de os ver saltar. Cláudia, com uma pedra na mão, e com a ajuda das crianças, começa a contar até três, simulando que vai disparar a pedra. “Isto faz-se?” Em uníssono, as crianças respondem que não. “Meus amigos, proteger a natureza não é só fazer reciclagem, é também proteger os animais. Temos de ser guardiões. Um sítio onde há muitos anfíbios, já sei que é limpinho, que não tem poluição. Claro que quero que eles se mexam, mas não posso chateá-los com pedras. Temos de respeitar", frisa.

RESPEITO PELA TERRA

Respeito. Pelos animais e pela terra. De volta à horta, Cláudia informa que há dois tipos de cores no chão: “No castanho clarinho é onde pomos os pés, no castanho escuro estão as terras com muitas vitaminas e onde estão as plantas.” Questiona-as sobre a alimentação das crianças: “Comem raízes?” Respondem que não. “Comemos, sim, algumas raízes, como a dona cenoura, a dona batata, o senhor nabo ou o senhor rabanete.” “Comem folhas?” Umas respondem que sim, outras parecem estar com dúvidas. “Comemos as folhas das couves, do repolho…”
Observamos o interesse especial dos mais pequenos pelos esclarecimentos sobre a reprodução das plantas. Abrem a boca de espanto quando ouvem falar em “plantas bebés”. “Há uma consciência díspar entre o que eles acham e a realidade. Muitos não têm a noção de como se reproduz a comida, de como as coisas vão parar ao supermercado.
Não têm a mínima noção de que comemos flores e folhas das plantas. Não têm a noção do princípio das plantas — só do resultado na prateleira do supermercado. E ficam impressionados e fascinados com este processo”, afirma.
Ainda na horta é percetível a admiração quando se lhes explica que os brócolos e morangos são uma flor e que os insetos são benéficos — não podem ser prejudicados — para o equilíbrio do espaço.
Cláudia conta, ainda, que os miúdos ficam intrigados com a cor do leite e a cor das vacas. Associam o leite às vacas brancas e o achocolatado às vacas castanhas. “Dizem-me que as vacas castanhas dão leite com chocolate, como coisa óbvia e direta, e que o leite vermelho, com batido de morango, é de outra variante de vaca. Acham que pode vir diretamente assim, o que é preocupante.”
“Estes espaços são importantes porque têm contacto direto com a realidade e percebem, de modo didático, como é que o processo acontece, como as coisas são na vida quotidiana e vão parar ao supermercado. Acima de tudo, entendem qual é a nossa responsabilidade enquanto cidadãos ativos e conscientes — assim se espera que sejam no presente e futuro — a lidar e a proteger as origens”, enfatiza esta mediadora em contexto ambiental.


APRENDIZAGENS NOVAS

Há crianças que vivem nas cidades distanciadas da ruralidade. Os pais e avós vivem também em centros urbanos. O conhecimento da origem das coisas fica afastado das vivências do dia a dia. Voltamos ao princípio e às palavras daquele menino que nos contou nunca ter visto uma horta.
Por sua vez, o Martim, que já soprou 10 velas de aniversário e está no 4.º ano, conta que o avô tinha uma horta camarária e que “trabalhava arduamente, todos os dias com ele”. Perguntamos ao Martim, em jeito de brincadeira, se as suas tarefas a ajudar o avô eram mesmo pesadas. Do alto dos seus 10 anos, responde com autoridade: “Usava os sachos, semeava, regava e colhia, quando era a época de dar frutos ou legumes. Eu também plantava morangos com o meu avô e depois partilhávamos com a família.”
Hoje, na visita, viu melancias na horta e “achou divertido”, porque o avô não as tinha no seu campo de cultivo. Com a maturidade de um menino já habituado à vida rural, Martim comenta: “Estou a gostar muito de dar uma volta na horta, porque está a dar-me memórias. Gostava de estar aqui com o meu avô, porque, se ele ainda tivesse a horta, eu dizia-lhe:" 'Temos de plantar isto [as melancias]’.”
A Maria Inês, nove anos, a frequentar o 3.º ano, diz que leva para casa aprendizagens inesperadas: “O que é de novo para mim é que as plantas têm bebés.” A Miriam também tem nove e está no 3.º ano de escolaridade. Revela que o avô tem uma horta e que, ao fim de semana, está com a família no ambiente do campo: “Devemos cuidar muito bem das plantas e não estar a toda a hora a pisá-las. Vou contar a todos que vi várias plantas, couves, e como é feito o açúcar”, conta, apontando para a cana do açúcar.
O Martim quer voltar a falar. Põe o braço no ar e quer partilhar a sabedoria apreendida há momentos: “O açúcar não é realmente feito como pensamos. Eu pensava que ele já era retirado em pó e depois faziam-se uns cubos de açúcar – não. É um processo maior. E o mais saudável e o mais natural é o mais escuro”, diz, com surpresa.
Surpreendido ficou também quando soube que “a cana do açúcar faz bem ao ambiente, é a planta que mais absorve dióxido de carbono, que é um gás que nos faz muito mal, e transforma em oxigénio”. 

PERGUNTAS E RESPOSTAS CURIOSAS

A Mara, oito anos, que, com graça, diz ir para o 4.º ano, mas que ainda está no 3.º, quer falar para sublinhar a sua surpresa: “Nunca soube que o açúcar mais saudável é o escuro. Agora, têm de me comprar o mais escuro para pôr no meu waffle o açúcar e a canela.” Há mais uma coisa que quer partilhar. Apesar de ter visto couves na horta, não gosta mesmo nada delas, “só de alfaces estaladiças, porque é muito fixe o barulho”.
Segue-se a visita ao pomar e, depois, ao galinheiro. “Quem manda no galinheiro?” – ouve-se a pergunta. Explica-se que é o galo: “Se o galo sentir que há perigo no galinheiro, começa a fazer o som ‘cocorocó’ – é um código que significa: ‘Atenção a todos, espécie invasora a chegar ao galinheiro.’ Este é o primeiro comportamento do galo, o segundo é seguir-vos para ver se tratam mal as galinhas. Ele precisa delas para continuar a sua espécie.”
Após o esclarecimento, as crianças aproximam- se do gradeamento e atiram para longe um conjunto de sementes para alimentarem as aves domésticas. Os miúdos estão curiosos, fazem perguntas e querem saber por que razão só pode haver um galo no galinheiro: “Não pode haver mais do que um galo no galinheiro, porque senão lutam até à morte.”

PÃO E PARTILHA
Tudo o que veem e ouvem abre-lhes o apetite. É quase hora de almoço e chega o momento de amassarem as bolas que vão ser postas no forno a lenha. Aprendem, entre outras coisas, quais são os quatro ingredientes necessários para se fazer o pão: farinha, fermento, sal e água. Com farinha envolvida nas mãos, batem palmas, para darem forma às bolinhas sem que a massa se agarre nos dedos. 
A Mara conta: “Gostei muito de fazer pão, porque nunca tinha feito na minha vida.” Agora, com oito anos, já pode dizer
aos pais, avós e amigos que teve mais uma experiência na área da gastronomia, até porque, diz, gosta muito de cozinhar e sabe “fazer omeletes”. O Tiago, de nove anos, também no 3.º ano, aproxima-se e partilha a sua experiência na confeção do pão: “Gostei muito de amassar; fazer a bolinha é muito satisfatório. Dá-nos energia.” O rapaz assevera que vai comentar com os pais e avós o que ali fez e até gostava de os envolver nestas atividades, “porque estar em família é a coisa mais importante”.

Sílvia Júlio

APROXIMAR GERAÇÕES NAS RAÍZES
“SÃO MEMÓRIAS PARA A VIDA”

Teresa Costa, vogal do conselho de administração da INATEL, contribuiu para o desenho do programa Origens, especialmente criado para avós e netos, a viver em cidades, que querem desfrutar de férias em família, em contacto com a natureza, no campo e na praia. Aprendizagens e vivências de duas gerações distantes que se aproximam nas memórias afetivas de uns e de outros.

Porquê a designação Origens?
A proveniência de muitos avós, que vivem nas cidades, é do mundo rural. O programa é, preferencialmente, desenhado para os avós. Esta será uma forma de regressarem ao meio onde foram criados e partilharem com os netos o que vivenciaram: “Olhem, na vossa idade, plantei batatas, vi nascer animais.” Os avós mostram aos netos, entre os seis e os 12 anos, que os vegetais e a carne dos animais à venda no supermercado não aparecem por mero acaso — tudo teve uma origem.

De que forma este programa se cruza com a missão da Fundação INATEL?
A Fundação INATEL, que começou com a designação Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), em 1935, proporciona também alegria aos pais que estão a trabalhar e sabem que os seus filhos, no período de férias, não estão isolados em casa. Os filhos e pais idosos podem desfrutar em felicidade deste programa. Saber que os nossos filhos e os nossos pais estão bem contribui também para a felicidade no trabalho.

As crianças estão, muitas vezes, isoladas em casa agarradas aos ecrãs e os avós sozinhos no seu espaço. Pode ser mais difícil tirar estas duas gerações de casa…
O foco é precisamente o combate ao isolamento dos avós e netos. Queremos também promover a intergeracionalidade, pela partilha de experiências e pelo convívio durante uma semana devidamente acompanhada pelos nossos programadores. Os avós vão desfrutar da companhia dos seus netos — não vão estar a tomar conta deles nem a preparar-lhes as refeições. É inteiramente um momento de desfrute de uns com os outros. O objetivo é retirar as crianças do telemóvel e do computador, do mundo virtual, entre quatro paredes, e levá-las para a partilha e troca de experiências, em contacto com a natureza. O foco da criança é brincar, aprender, descobrir — é o que pretendemos com este programa, ou seja, a criança ser criança. Pretendemos que as crianças tenham uma recordação de férias vividas com os seus avós e que essas memórias fiquem para a vida.

Os afetos cruzam, também, com sustentabilidade?

A sustentabilidade ambiental, que é um dos focos, leva as crianças a darem valor ao que aparece no supermercado, porque viram a origem, o sacrifício, o esforço. Há aqui, ainda, a sustentabilidade social com a intergeracionalidade ao promover laços entre os mais novos e os mais velhos.

Noto especial emoção ao falar deste programa Origens. Pergunto-lhe o que está por detrás desse entusiasmo? Memórias familiares?

Fui a filha mais nova. Tive o privilégio de ter vivido com os meus pais idosos. Vi a importância do convívio entre os meus pais e os meus filhos. Vivi a angústia de trabalhar em Lisboa e os meus pais estarem longe. E eu não podia estar mais presente, porque estava a trabalhar. Só de imaginar que podia proporcionar aos meus pais uma semana com os meus filhos, desfrutando de um momento em comum, seria uma semana feliz também para mim. Vejo muitos avós isolados — os netos podiam ocupar mais tempo com eles ao invés de estarem cativos das tecnologias.
Tirar as crianças de tenra idade do isolamento contribui para a saúde mental e o sucesso escolar. Em vez de os netos e os avós estarem cada um no seu canto, podem estar abraçados. No mundo virtual as pessoas não se tocam. E este é um programa de afetos. São memórias para a vida.
SJ

ORIGENS – FÉRIAS EM FAMÍLIA
Caparica
22 a 26 de junho
Cerveira e Foz do Arelho
5 a 9 de julho

Mais informações sobre pontos de partida:
Tel. 210 027 000
turismo@inatel.pt
www.inatel.pt