Eduardo Sá

“Brincar torna-nos melhores pessoas”

 

O psicólogo, psicanalista e professor da Universidade de Coimbra e do Ispa – Instituto Universitário, em Lisboa, sublinha, no novo ano que agora começa, o valor de falarmos mais uns com os outros, de nos cuidarmos e ventilarmos as emoções e os sentimentos, num mundo onde falar de amor parece “jurássico”. “Falamos muito pouco”, alerta

 

Brincar, conversar, escolher, fazer, provocar, silenciar… Eis alguns verbos que ficam a ressoar em cada uma das palavras de Eduardo Sá, que é também autor de artigos e livros, nomeadamente de saúde familiar e educação parental.
A circunstância que o deixou numa cadeira de rodas não é impedimento para fazer as escolhas que lhe parecem ser as melhores e correr atrás do que acredita. Diz que a vida não mudou no essencial. “Continuo a fazer as coisas que entendo fazer e não é um constrangimento ou outro que me impede a ir por diante”.
Com palavras desconcertantes e interpeladoras, conta “ter esperança” de que o país seja mais amigo das pessoas, sobretudo das crianças e dos mais velhos. Enfatiza a necessidade de se criarem hoje condições para que “as crianças cresçam como crianças” – um desígnio que “não é para amanhã”. Destaca, também, a importância de se brincar, em todas as idades, para todos serem pessoas melhores.

Começo com uma passagem do livro O Homem em Busca de um Sentido, de Viktor Frankl, psicoterapeuta que sobreviveu a Auschwitz: “Nós que vivemos em campos de concentração, podemos recordar os homens que iam de caserna em caserna para confortar os outros, oferecendo-lhes o último pedaço de pão. Podem ter sido poucos, mas constituem prova suficiente de que tudo pode ser tirado a um homem, menos uma coisa: a última das liberdades humanas – a possibilidade de escolhermos a nossa atitude em quaisquer circunstâncias, de escolhermos a nossa maneira de fazer as coisas.” Como está a escolher a sua maneira de fazer as coisas?
As escolhas são o reconhecimento dos nossos desejos. E eu acho que fomos todos mal-educados nesse departamento. Na educação judaico-cristã parte-se muito do pressuposto de que o desejo é escorregadio, perigoso, e outras coisas, quando não me parece. O desejo é uma manifestação intuitiva, muito estádia, muito estérea em relação àquilo que, de alguma forma, é importante para nós. Elegermos um desejo é reconhecermos que não podemos ter tudo. Claro que eleger um desejo é uma forma de, depois, trabalharmos humildemente para o concretizar. Não acho que haja desejo sem humildade. E, já agora, sem gratidão. As minhas escolhas têm somente a ver com isto: identificar o que desejo para mim e medir com a vida no sentido de concretizar tudo isso. Não é diferente do que se passa com outras pessoas. Às vezes tenho a ideia de que vivemos num mundo tão agitado que, em vez de elegermos os nossos desejos, pomos a vida a escolher por nós.

As palavras de Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, em O Guardador de Rebanhos, “Eu sou do tamanho do que vejo/ E não do tamanho da minha altura…”, levam-no agora para que lugares, desde que um par de rodas começou a ser um meio que transporta os sonhos que estão em si?
Se há coisas que me deixam verdadeiramente zangado é um acidente ou um conjunto de constrangimentos colocar-se à frente do que sou. Eu sou um constrangimento na minha vida – não é por isso que deixo de ser o que entendo que devo ser. Aliás, todos somos bons a desculparmo-nos com a verdade e, quando queremos justificações para não irmos atrás das coisas em que acreditamos, temos sempre amiúde justificações – acho que é assim com toda a gente. Eu recuso-me a isso. A minha vida não mudou no essencial. Continuo a fazer as coisas que entendo fazer e não é um constrangimento ou outro que me impede a ir por diante.

A cadeira de rodas pode limitar a geografia exterior. A geografia interior não tem baias ou obstáculos…
Vou-me dando conta que, embora tenha passado para o universo dos deficientes, tomando em consideração as desconsiderações que o Estado e as pessoas acabam por ter em relação a eles, deficientes, eu não serei o mais deficiente de todos, de certeza absoluta. Há muitos que, de alguma forma, clamam essa eficiência, mas ainda não perceberam que têm mais limitações do que eu.

O que está a descobrir no mundo depois do que lhe aconteceu? 
Acho que quando nós aproveitamos os sobressaltos, criamos oportunidades. Se eu quisesse uma justificação para me encolher em relação àquilo que são as minhas escolhas, teria uma justificação fortíssima – não é o caso.

Falava há pouco das desconsiderações do Estado, das pessoas. Muitas vezes somos nós os menos eficientes. Nestas eleições de janeiro… Que alertas podem ser deixados à sociedade, em geral, e aos políticos, em particular?
Esses políticos, muitas vezes, com grande tristeza minha, porque entendo a política como um exercício de nobreza de caráter, confundem a política com uma claque. Às vezes são políticos porque não têm mais nada para fazer e ficam aquém do exercício de seriedade e de verdade para com as pessoas. Muitas vezes, os políticos não merecem os cidadãos que votam neles. E eu tenho muita tristeza a dizer isso.

Para não obstaculizarem, qual o sentido para onde têm de olhar?
No sentido da inteligência humana. Acho que as pessoas são muito mais inteligentes do que, eventualmente, alguns agentes públicos imaginam. Basta que falemos verdade para elas e, obviamente, são capazes de discernir a falsidade, o fingimento daquilo que, no fundo, são as grandes causas. Tenho muita esperança de que este país passe a ser mais decente para as pessoas – para as pessoas mais velhas e crianças. Este país, de facto, não é amigo para as pessoas. Falta-lhe muito para isso.
Parece que ninguém se preocupa com a perspetiva de, em 2070, sermos quatro a seis milhões de pessoas – praticamente, a metade dos cidadãos que somos hoje. Ninguém se preocupa com aquilo que é a Segurança Social, seja lá o que for que isso faz. A Segurança Social é, provavelmente, dos últimos departamentos do Estado que ainda não percebeu que o 25 de Abril já foi há muitos anos e que trata os cidadãos como se fossem pobres de espírito. Portanto, enquanto este país não acordar para ser amigo das crianças… Eu adorava que nas campanhas eleitorais explicassem às pessoas como é que se pode ter vários sítios da infância que podem custar mais do que uma universidade privada. Enquanto não nos dermos conta de que este país está a envelhecer – e envelhecimento não significa falta de património. Pelo contrário – significa sabedoria. Mas, enquanto, aquilo que se dá às pessoas mais velhas são condições absolutamente vergonhosas, este país ainda precisa de crescer muito, muito, muito para ser amigo das pessoas.

Que caminho tem de percorrer para ser amigo das pessoas?
Ver que, de facto, a educação é um meio absolutamente precioso e não pode – como continua a acontecer – separar ricos de pobres. Essa ideia de que a educação é um elevador social não é bem assim. As crianças, quando chegam à escola, já têm pontos de partida, recursos familiares e, já agora, técnicos, muito, muito diferentes. Um computador e uma banda larga não estão ao acesso de todas as crianças deste país. Criar condições para que as crianças cresçam como crianças é um desafio que não pode ser para outra legislatura, não é para amanhã. Portanto, nessa circunstância de vida começar a dar atenção à criança em tudo o que ela representa e cuidar das pessoas mais velhas. Não é empacotá-las em serviços que, pomposamente, se chamam lares, onde muitas delas estão, rigorosamente, numa solidão interminável, muitas delas hipermedicadas contra tudo o que era suposto e, sem outra alternativa, esperarem pacientemente que a morte as leve – o que acho de uma violência verdadeiramente ignóbil.
Tomar em consideração as pessoas é perceber que as pessoas trabalham, muitas vezes são exploradas – isso não é razoável. Ter mais recursos de vida significa terem mais capacidade para fazerem as suas escolhas, o que, tragicamente, em muitos momentos, não acontece. 

Falou da Segurança Social que trata as pessoas como pobres de espírito… O que tem visto?
A forma como a Segurança Social se relaciona com as pessoas é estranha. É o nosso dinheiro que alimenta a Segurança Social. Quando a Segurança Social pondera sobre os apoios que os cidadãos merecem não lhes está a dar um bónus ou uma benesse – está a dar aquilo que têm direito.
A Segurança Social, em abstrato, não trata os cidadãos como pessoas. Trata-os como necessitados, como se fossem de segunda categoria. Enquanto for assim, enfim… Precisamos de fechar para balanço e abrir com outra gerência.

Pode dar um caso concreto?
Uma sala de espera de um centro regional da Segurança Social e vê-se a forma como se fala para as pessoas. É uma forma oblíqua, não é uma forma olhos nos olhos, de pessoas iguais para pessoas iguais que, ali, naquelas circunstâncias, têm funções diversas. Portanto, muito tem de ser mudado… Eu gostava que nos dissessem quais são os apoios… Os pais, a família com grandes carências que apoios podem ter para educar. Gostava que me dissessem como é que as famílias monoparentais podem educar os seus filhos, as pessoas que têm filhos deficientes e têm subsídios miseráveis, por parte do Estado, e as mães que têm de sacrificar o seu trabalho e a sua carreira porque, não sendo elas, estas crianças ficam sozinhas. E mesmo as instituições que acolhem estas pessoas mais necessitadas, às vezes, não têm a supervisão que deviam ter. Portanto, ainda se funciona muito naquele registo de que se tiverem um teto e algumas refeições por dia, o mundo será um lugar melhor. Ainda estamos muito longe de um mundo melhor.

Vivemos tantas vezes com o coração apertado pelas diferentes razões que todos conhecemos, instabilidades várias no país e no mundo. É possível, ainda assim, sermos felizes com as múltiplas ameaças que pairam sobre a humanidade?
A humanidade sempre viveu com ameaças. A qualidade de vida dos nossos bisavós era radicalmente diferente, para muito pior, da nossa. Nessas circunstâncias, eles tinham todos os argumentos do mundo para serem más pessoas – e eles escolheram ser boas pessoas. A humanidade, mesmo quando as pessoas foram vivendo e crescendo num contexto de uma dor muito significativa, foi capaz de crescer para melhor e nem sequer os do mal do mundo foram capazes de ter a clarividência, a inteligência e sabedoria humanas que faz com que hoje o mundo seja, ainda assim, um lugar melhor do que era há muitos anos. 
Agora, com a proliferação de fontes de informação – muitas vezes não são fontes de informação, são algoritmos que se transformam numa espécie de influenciadores digitais –, as pessoas têm de perceber, em primeiro lugar, que ninguém é feliz sozinho. A felicidade humana nasce desta capacidade de nós casarmos as escolhas com outras pessoas que são importantes para nós e lutarmos por elas. É muito engraçado, como costumo dizer, que encontro, por conta deste discurso digital que nos chega todos os dias, via redes sociais, que falar de amor e de felicidade parece jurássico – como se fosse fora de moda. As pessoas não são hoje muito diferentes daquilo que eram. O que acho muito engraçado é que os tiranos deste mundo têm pés de barro. Se aprendessem com tudo o que a História já nos elucidou em relação à tirania, acabariam por ser melhores pessoas. Mas a felicidade está ao alcance de qualquer um de nós. Dá muito trabalho ser feliz. A felicidade não se faz à margem da humildade humana e não é o resultado do exercício de uma afirmação narcísica. Nós vivemos num mundo narcísico, muito vaidoso, no registo d’“o rei vai nu” e andamos todos muito envolvidos nisso, quando a felicidade é uma coisa diferente. Exige trabalho, dimensão, humildade, escolhas. Portanto, o mundo pode estar completamente constipado, mas se nós fizermos as escolhas que entendemos fazer, ninguém – rigorosamente ninguém – impede que cheguemos onde entendemos chegar.

Como explicar às nossas crianças e aos nossos jovens que, apesar de o mundo ser um lugar perigoso, com a “linguagem do terror”, que “vemos, ouvimos e lemos”, como escreveu Sophia, o mundo é também um lugar maravilhoso?
Fazendo um contraponto a essa banalização da má educação, desumanidade e violência, dando-lhes a prova de que, sempre que dizem um “ai”, nós estamos presentes. Quando imaginam não ser capazes de descobrir um caminho, nós ajudamos a construí-lo. 
Quando os nossos filhos perceberem que, independentemente de tudo o resto, têm um pai e uma mãe que lutam por eles, que fazem um contraponto em relação aos devaneios, às vezes um bocadinho egocêntricos, que são uma entidade reguladora em relação a tudo o que são os seus comportamentos, que não desistem de os educar pela vida fora, não é a maldade do mundo que os vai fazer desviar daquilo que faz sentido. O que a vida nos ensina é que quando nos juntamos uns aos outros, somos tão mais fortes. É isso que irrita os maus do mundo, que nos querem mais sozinhos e solitários, porque assim nos manobram melhor.

Na correria do dia a dia, como nos aproximamos mais uns dos outros para nos cuidarmos mutuamente?
Falando, falando, falando no que pensamos, no que sentimos, nas coisas que nos magoam. Nós falamos pouquíssimo em relação àquilo que precisamos para sermos pessoas mais saudáveis.

Temos, talvez, a ideia de que se fala, fala, fala… Mas, afinal, ventila-se pouco as emoções e os sentimentos.
Falamos muito, na maior parte das vezes, sem dizermos nada. Pomos like em todo o lado, como se isso fosse o quanto basta para as pessoas saberem as nossas opiniões. Às vezes, nem com as pessoas com quem vivemos somos claros a dizer o que precisamos e o que é indispensável para nós. Mesmo em relação aos nossos filhos, em muitas circunstâncias, somos tão pouco claros quando precisamos de ser. Às vezes as pessoas magoam com atos e omissões. Falamos pouco daquilo que pensamos e sentimos. Enquanto for assim, temos a ideia de que vivemos num mundo de comunicação e vamos ficando cada vez mais solitários ao pé dos outros.

Como cuidar diariamente da nossa saúde mental neste mundo de entropias?
Sabendo que o silêncio é um património da humanidade e que o silêncio nos ajuda à reflexão, a falar com os nossos botões, como os nossos avós diziam… Sabendo que as pessoas indispensáveis na nossa vida são muito preciosas e tanto nos podem dar vida, como nos podem matar em suaves prestações, assim nos dececionam hoje um bocadinho, amanhã outro bocadinho. Nós deixamos que elas se afastem de nós mais do que era suposto… Sabendo que o trabalho não é o mais importante da vida – muito longe disso. As nossas relações amorosas estão à frente de tudo, os nossos filhos, a nossa família, os amigos e, finalmente, o trabalho vem em quinto lugar, que é onde ele deve estar. Percebermos que o respeito e a dignidade humana não se compram nem são descartáveis. E percebermos que uma escola serve para nós pegarmos em miúdos que, quando lá entram como boas pessoas, têm de ser pessoas melhores quando de lá saem.

Para terminar, como gosta de gozar o tempo livre?
Acima de tudo, estar com eles [é pai de seis filhos]. Gosto de brincar com eles, sobretudo.

Nós andamos a brincar pouco?
Continuamos a brincar pouco uns com os outros. Continuamos a ter uma ideia – que acho pateta – que brincar é um património das crianças, e que as pessoas à medida que crescem deixam de brincar. E tanto não sabem brincar que, às vezes, se confunde a ironia com atitudes acintosas. É a prova de que baralhamos tanto as coisas que deixamos de aprender a brincar. Portanto, brincar torna-nos melhores pessoas. 

Sílvia Júlio