Maria do Céu Guerra
A alegria é um dom que nos torna singulares
Quando recebeu o Prémio Mérito – Personalidade na Gala Inatel 2026, no Teatro da Trindade, a atriz deixou logo o tom daquilo que iria sobressair em toda a conversa: o importante é mesmo a alegria com que nos damos aos outros e à vida
Maria do Céu Guerra estreou-se com 20 anos, em 1963, na peça “Deseja-se Mulher”, de Almada Negreiros, na
Casa da Comédia e desde aí tem construído um dos percursos mais notáveis da cultura portuguesa, tanto no teatro
como no cinema e na televisão. Quando conversámos com ela, percebemos a importância que teve, na sua vida, esta paixão simultânea pela literatura e pelo teatro, bem como o convívio que, desde muito cedo, teve com pintores, poetas e escritores. A mãe era jornalista na Rádio Renascença e, antes de regressar a Cascais, onde moravam, passavam pela Brasileira. Conheceu o peso da ditadura muito cedo: o seu pai, apoiante de Humberto Delgado em 1958, esteve preso e teve de se exilar na Bélgica. Em 1963, a seguir à Crise Académica de 1962 – grande movimento
de oposição estudantil a Salazar – estava na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudava Filologia Românica. Costuma dizer que a sua geração viveu o Maio de 68 em 1963. O seu espírito insatisfeito levou-a a
integrar diferentes e importantes grupos de teatro, como a Casa da Comédia, o Teatro Experimental de Cascais e o Ádoque, num percurso que culminou com a fundação, em 1975, com o pintor Mário Alberto, de A Barraca, grupo a que se tem dedicado nos últimos 51 anos. Da Casa da Comédia, fundada em 1946 por Fernando Amado, e onde se
estreou em 1963, ficou-lhe “um lugar onde se aprendia tudo: ética, emergência, curiosidade, amor, bom ambiente.
Aprendíamos a darmo-nos uns com os outros. Não sei se alguma vez aquelas escolas peripatéticas dos gregos chegaram a esta leveza, a esta beleza, a este respeito pela arte e pelos outros. Não sei se, em algum sítio, se chegou tão longe nisto”. No Teatro Experimental de Cascais, a companhia criada por Carlos Avilez e que foi um importante foco de renovação estética do teatro, a sua ligação ao teatro passou a um outro patamar, o profissional. E não esquece o que foram os ensaios para a censura. Diz: “Aquilo era horrível. Um ensaio de censura era alguma coisa que nos destruía completamente a alegria de chegar à criação. Nós estávamos um mês ou dois meses a trabalhar e o primeiro
público que víamos eram uns agentes da PIDE, que levavam as amantes ou as mulheres, sentados na primeira fila, como se fossem os donos da casa, e que depois nos diziam que não se podia fazer.” Maria do Céu Guerra quando recebeu o Prémio de Mérito – Personalidade na Gala Inatel 2026, confessou que o teatro tinha surgido na sua vida como um sobressalto: “Gostava de ter sido marinheira, mas na altura às mulheres estavam vedados os caminhos do mar, dizia-se naqueles tempos que as mulheres e as gaivotas davam azar aos barcos.” No teatro continuou sempre à procura de outra coisa. Foi procurando. Imaginava um espaço que tivesse mestres e alunos, gente mais nova e gente mais velha; seduzia-a a ideia da Cooperativa Árvore (cooperativa cultural fundada em 1963, no Porto, que juntava diferentes intelectuais e artistas). Em A Barraca materializou muitos dos seus sonhos, algo que bebia da influência de “La Barraca”, de Federico García Lorca, uma companhia de teatro universitário itinerante. Conta a propósito: “A primeira coisa em que A Barraca gastou dinheiro foi numa camioneta. Nós ainda não tínhamos casa, já tínhamos uma camioneta, com sete ou oito pessoas, e lá íamos nós.” A Barraca é fundamental no percurso de Maria do Céu Guerra. O grupo tem tantas histórias, um historial tão rico, criado também com a mesma forja com que se fazia o teatro dos anos setenta: o pensamento, as discussões, as separações, as dificuldades. Maria do Céu apaixona-se pelo projeto de Hélder Costa. Diz-nos: “Ele vem de Paris com uma vontade de trabalhar a cultura, a história portuguesa, tão maltratada que estava, dizia ele.” Seduzia-a também o facto de não terem uma estética definida, uma direção definida; sabiam mais o que não queriam – o resto era o caminho que se iria revelar. Com Augusto Boal, e com a relação que este importante homem do teatro mundial do século XX mantinha com o grupo, sentia que aprendiam sempre qualquer coisa. “O Boal era o outro Doutor Amado”, chega a dizer-nos. Mesmo sem uma estética definida, espetáculos como “Fernão, Mentes?” (1981), com a colaboração de Fausto, “É Menino ou menina?” (1980) de onde surge para ganhar vida própria a Maria Parda, essa personagem a que Maria do Céu deu tanto de si, ou aquele em que José Afonso colaborou diretamente (Zé do Telhado, 1978), em que os atores eram também excelentes cantores, acabaram por emprestar ao grupo uma determinada identidade ao grupo, com um teatro muito festivo, popular. “Cada espetáculo era uma aprendizagem. E nós aprendemos, nós aprendemos muito. Aprendemos com o Boal e depois aprendemos com o Hélder. Com o Hélder a escrever, ao mesmo tempo que ensinava, e ele também à procura. Foi uma coisa muito boa”, diz-nos Maria do Céu. Quando fomos conversar com Maria do Céu Guerra, no Teatro Cinearte em Lisboa, o tempo parecia inesgotável, as palavras saiam como se brotassem de uma fonte de água cristalina a correr do sopé de uma montanha. Falámos inevitavelmente do seu percurso artístico, que se associa à riqueza e à complexidade do teatro português das últimas seis décadas, mas aquilo que marcou mais o nosso diálogo foi a leveza, a generosidade e a
disponibilidade com que ela se entregou à conversa. Na preparação desta li e vi muitas intervenções suas, mas houve uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro, inicialmente publicada no Público e depois também no site da jornalista (https://anabelamotaribeiro.pt/maria-do-ceuguerra-178153) que me tocou mais. Nela deixa uma ideia, a de que não gosta de envelhecer. Comecei por aí, por lhe perguntar porquê essa ideia, responde com ar de espanto: “Mas alguém gosta de envelhecer? Achas que sim? Eu acho que não. Envelhecer não é agradável. Eu acho que há umas coisas na criação que revelam uma certa crueldade da natureza e de Deus. E o envelhecimento, a doença, são coisas que têm subjacente um castigo, uma doença. E tenho uma certa pena, porque isto podia ser tudo mais leve. Se fosse eu que mandasse as pessoas não envelheciam. As pessoas teriam um tempo normal de vida e iam ficando menos fortes e iam ficando menos pacientes. Mas o envelhecimento é uma coisa...“ Obriga-nos a lidar com a degenerescência
do corpo e do espírito, não é? É. É evidente que não podemos imaginar que a vida e o mundo são tão generosos que nos deixam cá ficar sempre. Não pode ser, não cabemos. Mas... Eu gostava que isto fosse menos doloroso, menos mau. Na conversa que tiveste com a Anabela Mota Ribeiro escolheste duas palavras, leveza e alegria. O que é a alegria para ti? Essa vitalidade, o que é? É uma coisa extraordinária. A alegria para mim é... Há uma coisa muito engraçada. Há um santo, que é o Santo da Alegria, o São Felipe Néri. É o santo dos cómicos, do teatro, que sempre tentou acompanhar a vida criando alegria para os outros e para si próprio. Tanto que lhe chamavam o bobo de Deus. E ele, durante muitos anos, acompanhou a igreja sem ser religioso, sem ser padre. O Papa Francisco adorava São Felipe de Néri. E é muito engraçado. Porque eu acho que a singularidade das pessoas e, nomeadamente, deste Papa e deste Santo e da ligação deles à alegria, é que os faz singulares. Ou seja, as pessoas terem uma atração pela alegria, pelo bem-estar, pelo estar bem com os outros, por todos os dias aprenderem qualquer coisa, todos os dias ter uma coisa que nos faz estar melhor, é um dom, é um prazer. E acho que quem tem a sorte de ser tentado pela alegria não a deve largar. Não deve largar essa sorte, não deve largar essa possibilidade. Eu adoro estar contente. Adoro rir-me. Adoro gostar de estar a fazer o que estou a fazer. E gostava muito de que a vida pudesse ser isso. Isso é uma aprendizagem de uma viagem grande que tu já tens feita, não é? Sim, eu já fiz uma viagem grande, e fui sempre alegre. Eu lembro-me que era pequena e que a minha mãe uma vez disse-me que uma amiga dela, que era estrangeira, já não me lembro que país é que ela era, e isso passava-se em Cascais, dizia que às vezes me via na rua e que eu ia sempre a rir. Eu tinha uns dez anos. Ia sempre com um ar muito contente por estar viva. E ela achava interessante, uma miúda, porque os miúdos têm sentimentos como os adultos, vários, não é? Às vezes estão chateados, às vezes estão tristes, às vezes estão pensativos. E cada vez que ela me via, via-me sempre com a cara de quem estava contente e ia a rir-me. E é verdade, eu não faço nada para isso. Acontece.
Disseste também que a segurança não é o mais importante. Que o mais importante é aprender…
Sim, sim, claro. Claro, porque aprender é uma coisa muito boa. É uma coisa que devemos perseguir sempre. E não deixar de valorizar. Mesmo que as coisas que a gente aprende não nos deem grandes lucros nem grandes reconhecimentos e as pessoas não achem nada valioso aquilo que a gente alguma vez ou sempre valoriza. Aprender é uma coisa muito boa. A segurança não é uma coisa muito boa. Acho que não. Dá-me mais gosto gostar do que estou a fazer. Gostar das pessoas com quem estou a trabalhar, sentir-me feliz. Apetecer-me. Não desistir de nada do que me fui convencendo que eu gostava. Porque também é uma aprendizagem o que se gosta, não é? A gente vai crescendo e vai aprendendo do que gosta e do que não gosta. É como a comida. A gente não sabe tudo, não é? E o aprender do que
é que se gosta, para depois poder tirar o valor disso, é muito bom. Eu gosto muito de viver. Por isso é que acho que nós não devíamos ser expostos à dor, ao sofrimento, à indiferença dos outros, à maldade. Não devíamos. O ser humano não devia ter de estar exposto a isso. Isto não está muito bem pensado. Antes mesmo de entrarmos na tua história... Achas que eu tenho uma história? Achas? Acho que não. A minha história está por fazer. Antes de entrarmos aí: o que esta mulher e atriz que diz que veio para o teatro por causa do prazer de estar no palco e de ser outras pessoas, retira de ter construído personagens como a Maria Parda, por exemplo? A mulher-Céu ou a mulher-atriz? A mulher-Céu, e a mulher-Céu-atriz. O que é que retira desta convivência com estas mulheres extraordinárias que encarnou... Ah, isso é muito bom, porque... Isso é uma pergunta tão bonita, porque... Às vezes não conseguimos, mas o mais bonito é a estranheza e a novidade que as personagens nos vão dando. Ou seja, nós pensamos que somos nós que as construímos, mas elas também nos constroem a nós. Elas desafiam-nos, elas... E isso é extraordinário. A Maria Parda é um desses casos, não é? Essa é que é verdadeiramente a minha primeira encenação. Eu tinha feito um bocadinho da Maria Parda no “É menino ou menina”. Era uma coisa sobre as mulheres, sobre as mulheres do Gil Vicente. E esse espetáculo foi talvez aquele em que A Barraca teve mais reconhecimento do público. Emocionei-me muito quando a vi pela primeira vez... Aquela peça é extraordinária. E realmente dá-nos a vida toda de uma mulher. E tem uma grande modernidade. Fizemos aquilo numa altura em que começa a aparecer muita gente pobre nas ruas, a seguir àquele ano em que houve fome em Setúbal, em que houve grandes problemas. E conseguimos fazê-lo com alegria. Com alegria. O confronto da vida com a morte, o desejo, a alegria que aquela mulher tem. E quando falas das atrizes que admiravas, tens uma expressão muito engraçada, sobre a Carmen Dolores, a de “que era uma atriz que tinha biblioteca”. Pois. E não só tinha, como a emprestava aos jovens. Sim, porque nem todos os portugueses têm biblioteca, não são todos os que são criados com livros em casa. E isso é logo uma primeira escolha sobre a capacidade, a disponibilidade, o hábito de ler, de trabalhar, a curiosidade. Eu tive a sorte de ter livros em casa. E gostava muito de ler. Por exemplo, quando nós éramos pequenos, o meu irmão gostava imenso de ler o Sandokan e ler essas coisas e eu gostava de ler coisas completamente... livros sobre galinhas, livros sobre plantas... ler é aprender. E eu tinha essa coisa que aqueles livros todos que estavam ali diante de mim tinham coisas para me ensinar. Esta ligação à literatura, também acaba por ir em contramão com a ideia de associar uma certa futilidade às mulheres atrizes… Havia um estigma, como ainda há, mas também havia relativamente a outras profissões, não é? Mas tu sentias isso na pele... Sim, sim. Eu tinha a sorte de ter uma mãe que era culta, e que me ajudava nisso, a ter orgulho em aprender. Mas eu sentia nas pessoas que as atrizes não eram valorizadas como eram os atores. E tinham outras obrigações, serem bonitas, como se chama aquele livro que fizeram sobre a Natália Correia, O Dever de Deslumbrar. Sem perceber muito, isso é um dos piores estigmas do machismo. Porquê é que nós temos o dever de deslumbrar, seduzir? Seduzir quem? Porquê? Antes de mais nada, nós devemos ser aquilo que gostaríamos de ser. Perseguir esse sonho.” Despedimo-nos assim, com esta ideia de que ser mulher e atriz não era coisa fácil quando Maria do Céu Guerra começou a fazer teatro. Deixamo-la embrenhada no espetáculo que está a escrever, um desafio do ministério da Cultura, vai fazer um texto sobre a situação das mulheres ao longo destes tempos, deste o Estado Novo. Maria Lamas, Natália Correia, Catarina Eufémia são, entre outras, marcos na sua pesquisa. Já de gravador desligado ainda lhe pergunto, quando é que te reformas? “Quando deixar de ser feliz com o trabalho. Reformo-me quando deixar de ser feliz com o trabalho.”
Joaquim Paulo Nogueira


