SFUCO

Uma sociedade filarmónica que cria comunidade, há 140 anos, nos Olivais

Entre a Avenida de Berlim e a Infante Dom Henrique, passando o trânsito e a azáfama da urbe inquieta, desembocamos na Praça da Viscondessa dos Olivais, que já foi Campo da Feira e Rossio, e ostenta agora uma imperturbável faceta de núcleo antigo desconectado da “cidade planificada”, com a sua igreja matriz, o cruzeiro, chafariz, urinol público e um coreto, o segundo mais antigo de Lisboa

 

Em redor deste pequeno “largo de província”, até hoje localmente conhecido como Rossio dos Olivais, consolidou-se o conjunto urbano que hoje identificamos como Olivais Velho, a partir do qual, após o terramoto de 1755, se abriram os primeiros arruamentos e, em finais do século XIX, se erigiu o bairro operário, ao lado da fábrica de estamparias Francisco Alves Gouveia, que alteraria a feição e a vida social desta artéria.

Não tendo perdido a sua característica paisagem de quintas e campos, os Olivais foram, entre 1852 e 1886, um grande concelho entrar a passos largos na era da indústria, chegando a abranger 22 freguesias e 43 fábricas de barro, cortiça, estamparia, moagem, sabão, tabaco, tecidos de algodão, após a integração da estação de comboios da Linha do Norte, o primeiro troço férreo do país, entre Lisboa e Carregado.

Por essa altura, era este Largo do Rossio uma agitação, “embandeirado e iluminado”, concorrido por muita gente que ali afluía pela animação dos bailes e arraiais, festas em honra de Nossa Senhora do Bonfim e de São Sebastião, festejos dos Santos Populares, piqueniques, passeios a pé, fogo de artificio e concertos da Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense (SFUCO), como testemunham notícias do jornal O Século, relatando que “em volta do coreto dançavam alegremente polkas e mazurkas” e se apresentavam regularmente bandas militares, e civis constituídas no seio de unidades fabris.

“Somos uma família dedicada de alma e coração à nossa SFUCO”

Fruto desse fervoroso ambiente associativo vivido em Portugal, entre meados do século XIX e primeiras décadas de XX, nasce a SFUCO em 1886, imbuída do espírito da época, que aspira comumente à associação livre e voluntária como forma de organização social mais justa e igualitária, convicta das virtudes da instrução, da sociabilidade e civismo, onde se fundem os interesses individuais no interesse social.

Em Portugal, o modelo associativo que se dedicou à instrução, recreio e fruição e criação cultural, foi o que mais preponderou entre as classes trabalhadoras, abrindo novos espaços de socialização e lazer, novos sentimentos de pertença, novas ideias de cooperação e solidariedade, e disponibilizando recursos de grande significado simbólico, após a consolidação do regime liberal: propriedade coletiva representada na sede própria, local de convívio, reunião e elevação; e acesso gratuito a uma oferta cultural e/ou educativa.

Com 140 anos de atividade ininterrupta, sedeada no bairro dos Olivais, a SFUCO representa um caso notável de preservação, consistência e manutenção dos ideais que nortearam esta geração pioneira, empenhada em proporcionar cultura musical na localidade através da criação de uma sociedade filarmónica. Bisneto de João Maria da Silva (1864 – 1953) – um dos fundadores e elemento da banda – Joaquim Silva é dirigente há 50 anos, presidindo a Direção há 20, e não tem dúvida de que a forte ligação familiar contribuiu “para conservar praticamente intactos esses ideais e é uma das razões por que a banda tem conseguido superar todas as dificuldades ao longo de mais de um século de existência.”

A tradição musical no bairro, movida por raízes afetivas e de proximidade, e pela dinâmica do ensino, tem mantido a força vital intrínseca desta coletividade, como sublinha Joaquim, “nós fazemos um investimento na escola de música para que a banda continue a existir, senão já tinha acabado”. Por outro lado, são os valores de abnegação e partilha coletiva que determinam a sua continuidade: “Aqui ninguém ganha um tostão, é tudo por amor à música, aqui não há mercantilismo”, e a própria escola de música pratica valores de mensalidade quase gratuitos.

A função “congregadora” da banda revela-se nas suas múltiplas valências, de casa de música, centro de confraternização, meio de emancipação intelectual, mas também na sua capacidade de mobilização e coesão, onde “todos estão a construir e a trabalhar para o mesmo” num movimento que se perpétua entre gerações: “Por exemplo, temos agora na nossa direção três ‘jovens’, um deles é meu filho, o meu Luís com 55 anos, e o Jorge com 56 anos, que seguiu as pisadas do pai, músico sempre ligado à banda, os dois tocam na banda desde miúdos e o filho do Jorge, é a terceira geração, porque também toca clarinete; o Nuno, que já tocou, tem uma filha de 15 anos que toca e outra mais nova que entrou agora na escola de música.”

Hoje com 83 anos, associado desde os nove anos, herdeiro de uma linhagem de músicos instrumentistas e dirigentes, Joaquim recorda que “praticamente não havia ninguém na zona que não fosse sócio da SFUCO”, confessa o orgulho que sente pela “obra feita”, assumindo a “gestão voluntária e não lucrativa, exigindo de si liderança, responsabilidade social e dedicação”, mas conclui que, nos dias de hoje, “falta aquele espírito olivalense”.

O seu receio em relação à crise que se vive no dirigismo associativo prende-se não só com a progressiva “diminuição de frequentadores habituais” e com a “falta de motivação dos atuais associados” para darem um contributo na renovação de quadros, mas sobretudo, porque se assiste a uma certa “perda de valores humanitários” que estão na base do movimento associativo. Além disso, nos dias de hoje, “já não basta a disponibilidade de tempo e a carolice”, são imprescindíveis “conhecimentos nas áreas da cultura, gestão, administração”, e uma instituição centenária de utilidade pública como a SFUCO, precisa dessa atualização, na passagem de testemunho.

“Quando assistimos a uma banda a tocar, também ouvimos conhecimento”

Luís Ferreira é maestro da SFUCO desde 2012. Iniciou o seu percurso com dez anos na filarmónica da terra natal, em Maiorga, Alcobaça, fez o Conservatório Nacional, licenciou-se em Música – variante Clarinete e concluiu mestrado em Direção de Orquestra de Sopros. Atualmente, também dirige os seus filhos, clarinetista e percussionista, membros integrantes da Olivalense.

Na qualidade de regente e pedagogo, explica de que forma se estrutura o trabalho de um instrumentista até ingressar na banda, cabendo ao professor “valorizar sempre o que cada um tem de positivo” e “encontrar equilíbrio entre as expectativas e as reais aptidões do aluno”: a partir dos sete anos de idade, na iniciação, o aluno adquire “um primeiro contacto com a música, treino auditivo, os nomes das notas, o solfejo”; passa à classe de formação musical, quando demonstradas capacidades e considerado apto pela professora; depois de experimentar os diversos instrumentos disponíveis, inicia a aprendizagem individual do instrumento – que lhe será atribuído e cedido pela coletividade, sempre que possível; por indicação do professor de instrumento, passará a frequentar os ensaios da orquestra juvenil, que constitui o agrupamento de transição para a banda da SFUCO, objetivo final.

Além do maestro, que é responsável pela escola de música e integra o corpo docente na classe dos clarinetes e orquestra juvenil, a escola conta com seis professores qualificados, quatro dos quais músicos da banda. Os desafios para um professor de música são cada vez maiores, pois, como refere, “há pouca paciência porque os miúdos querem resultados rápidos, e na música não há resultados rápidos, é um trabalho de muita perseverança, de estudo individual, disciplina”, o que exige adaptar “novas metodologias e introduzir novos hábitos de aprendizagem estimulantes e cativantes”, para que não percam o foco principal, ou seja, manter o gosto pela música.

Composta por 60 a 65 músicos, maioritariamente amadores, grande parte dos quais iniciados na escola da SFUCO, a banda apresenta hoje, segundo Luís, um “nível estético e artístico interessante”, executando “reportórios diferenciados e adequados aos desafios propostos nas diversas atuações”. Contudo, na sua perspetiva, o fator diferenciador essencial não se esgota na “partilha de conhecimento e gosto musical”, mas na partilha de objetivos, esforço de equipa, experiências e relações sociais, uma vontade comungada entre amigos, e também, claro, a diluição das hierarquias sociais, o convívio entre gerações, o exercício cívico e da cidadania: “Aqui tens várias gerações, diferentes profissões e ocupações, desde o estudante ao licenciado, mas não há doutores nem engenheiros, são todos iguais, o Luís, a Joana, a Maria, o Tomás, são todos músicos da SFUCO, são todos colegas.”

Como esclarece, quase sempre existe já um elo de ligação, através de um “amigo, colega, familiar” que toca na banda, e descreve o caso expressivo de Frederica, 14 anos, vinda do ensino integrado, que é atualmente o elemento mais jovem da SFUCO, pois desde que participou num estágio para orquestra de sopros no verão, gostou tanto que decidiu juntar-se à banda dos Olivais, onde sabia de antemão que iria encontrar colegas. Aliás, são vários os casos relatados, de músicos que integram a banda para terem a oportunidade de tocar em conjunto, vindos de outros contextos formativos, de outras filarmónicas, e até de outras geografias, incluindo estrangeiros.

Embora considere, por um lado, que o seu papel é “cuidar da vertente artística, tentando extrair o melhor do conjunto, mas também conseguir o melhor de cada um, individualmente”, Luís observa que, para alguns músicos, “o ensaio da banda é o ponto de encontro semanal com colegas de há 20, 30, 40 anos”, motivados pelo “ambiente bom e saudável e a convivência”. E clarifica, “alguns estão naquela faixa etária dos 40 aos 60 anos, muito importante para a banda, porque se não desistiram antes, já não vão desistir, andam cá desde os dez anos, aqui casaram, aqui cresceram, aqui fizeram amizades”. É o caso de Carla, flautista, e de Luciano, trombone baixo, “os mais antigos da banda”, a celebrarem 50 anos de ligação à sua segunda casa.

Alguns dos músicos desta geração iniciaram o seu percurso sob orientação pedagógica do maestro Luís Nogueira Rego, antigo coordenador do Sector de Música do INATEL IP, que assumiu a regência e a direção da escola de música em 1987, assegurando a “transição para uma banda mais nova e com formação”.

Como lembra Luís Ferreira, as décadas de ’80 e ‘90 assinalam também “a ação muito relevante” da INATEL IP – repartida entre Gulbenkian e Secretaria de Estado da Cultura – através do apoio material (instrumentos), da promoção destes agrupamentos e sua atividade, e das formações para regentes e jovens músicos, as quais ele próprio frequentou como instrumentista e regente.

“Epá, a minha banda é onde eu aprendi!”

Enquanto “banda de cidade”, localizada num centro urbano, a SFUCO apresenta um calendário anual regular de concertos que se distingue do contexto e reportório de rua tradicionalmente associados às bandas filarmónicas, ao verão e às atuações de acompanhamento musical em marcha, nas festividades populares e religiosas.

Conforme adianta Luís Ferreira, “a realidade de Lisboa é diferente, por exemplo, da realidade de Mogadouro” e “de algumas zonas do país onde o acesso à aprendizagem da música continua a ser feito através das bandas filarmónicas”. De resto, um olhar pelo mapa regional de Portugal ilustra a “diversidade e riqueza que as bandas nos oferecem”, pois nas “diferentes atuações que realizam, festas, procissões, concertos, desfiles” existe sempre “palco para todas elas”.

Com efeito, nos últimos anos, a qualidade técnica e performativa aumentou notoriamente, resultado da sólida formação em escolas oficiais de música e da proliferação de escolas de ensino artístico especializado, por todo o país. Como lembra, mesmo em Lisboa, “antigamente, para estudar clarinete no ensino oficial, só havia o Conservatório e a Academia de Amadores de Música”.

Na SFUCO, existem casos de jovens que prosseguem os estudos musicais, ingressando no Conservatório Nacional, Metropolitana, Escola Superior de Música, mantendo e reconhecendo essa ligação profunda à “banda do coração”, essa espécie de “escola social”, que os viu crescer artisticamente e como seres humanos. Em jeito de exemplo, Luís Ferreira partilha um diálogo testemunhado, precisamente, entre músicos de bandas diferentes, que reforça esse claro sentimento de pertença: “ ‘Então, mas qual é aquela que tu consideras a tua banda?’, ‘Epá, a minha banda é aquela onde eu aprendi, a gente aqui quando diz a minha banda, é onde eu comecei e onde eu toco, essa é a minha banda!’ “

Estética e artisticamente versáteis e adaptáveis às condições e ao contexto onde se apresentam, as bandas filarmónicas revelam-se um fenómeno expressivo de resiliência e vulnerabilidade, estando a sua continuidade, durante décadas, relacionada com essa flexibilidade, enquanto gerem um património que, pela própria natureza da atividade (instrumentos, fardamento, instalações, partituras), é quase sempre exigente e deficitário.

Essa dualidade manifesta-se ainda no reportório eclético – do tradicional ao erudito e de vanguarda – e na polivalência performativa – dos concertos ao ar livre, em auditórios às atuações em missas, touradas, bailes, desfiles, e cerimónias e eventos oficiais, desportivos ou sociais – conferindo-lhes uma capacidade transversal, complexa e fascinante de se reproduzirem no tempo e de experimentarem futuros.

Sofia Tomaz

“SFUCO representa região de Lisboa na Cidade das Tradições”

Parque de Jogos 1.º de Maio, 20 de setembro, 11h – A Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense (SFUCO) vai abrir o terceiro dia do evento, iniciando um percurso em desfile pelo recinto e concentração no palco RAIZ, culminando num concerto ao ar livre a não perder, de tributo à tradição musical de Lisboa, com arranjos específicos para banda filarmónica.

Fazem parte do programa melodias de sempre, como “Barco Negro” e “Lisboa, Menina e Moça”, que exaltam a alma da cidade e a poesia de Ary dos Santos e David Mourão-Ferreira, eternizadas por Amália ou Carlos do Carmo, com arranjos de Álvaro Reis (“Uma Noite em Lisboa – Fantasia Alfacinha”).

O programa inclui ainda temas célebres reunidos no medley sinfónico “Marchas de Lisboa”, de João Neves, alusivo aos Santos Populares, e, com arranjo de Luís Cardoso, uma seleção de conhecidas “Canções da Tradição”, que combina melodias originais numa rapsódia para orquestra completa de sopro e percussão, demonstrando a riqueza harmónica e rítmica da música tradicional.

A SFUCO, coletividade mais antiga dos Olivais, promete uma manhã de domingo especial, dado o reconhecido virtuosismo dos instrumentistas, sob direção do maestro Luís Ferreira, que espera oferecer “momentos de partilha do trabalho musical e artístico da banda”, num evento onde também todos os elementos “se sentirão representados”.

A entrada é livre.