Reportagem
Passadiços de São Mamede de Ribatua
Um trilho para o futuro do interior
No coração do Alto Douro Vinhateiro, entre socalcos, escarpas e pequenas cascatas que descem em direção ao Tua, erguem-se os passadiços de São Mamede de Ribatua, grande investimento da autarquia de Alijó que, num exemplo de como o interior procura reinventar-se, os projetou como catalisador de desenvolvimento assente na valorização do património ambiental e cultural
Alícia e Daniel, 27 anos, estavam a subir do cais numa tarde de grande calor, quando os encontrámos, depois de terem terminado o percurso dos passadiços. Vivem em Santa Maria da Feira e trabalham em Vila Nova de Gaia, na área da Medicina Veterinária. Moram juntos recentemente, gostam de acampar, fugir da cidade e fazer trilhos nos locais que visitam.
Gostaram muito da experiência, apesar de a considerarem exigente. Destacam a boa construção dos passadiços, as vistas deslumbrantes e a limpeza do espaço, mas gostariam que no cais existisse um local onde pudessem nadar e refrescar-se, e também que houvesse alguma animação turística.
Com cerca de 3,5 quilómetros de extensão, integrados no percurso circular PR18, os passadiços atravessam zonas de grande riqueza paisagística, ligando a Ponte Romana de São Mamede de Ribatua ao cais da aldeia, junto à albufeira da Barragem da Foz do Tua. Ao longo do percurso sucedem-se poços naturais, quedas de água, caminhos rurais e miradouros sobre os vales do Tua e do Douro.
São Mamede de Ribatua é uma pequena freguesia do concelho de Alijó que, como tantas outras aldeias do interior português, enfrenta há décadas um lento processo de desertificação. Desde os anos 80 perdeu cerca de mil habitantes. Hoje vivem ali pouco mais de seiscentas pessoas. A escola fechou, os jovens partiram em busca de oportunidades e a população envelheceu. É neste contexto que os passadiços surgem como uma possibilidade de movimento em contraciclo para vários setores da economia local.
"Nós temos recebido imensa gente e os benefícios têm sido ótimos. Na restauração, no comércio, nota-se aqui um movimento maior na economia local", resume José António Barros Monteiro, presidente da Junta de Freguesia, que também reconhece que a freguesia não estava, nem está ainda, preparada para receber uma afluência desta dimensão. Aos fins de semana, o impacto sente-se nos cafés, nos alojamentos locais, nos pequenos negócios, nos serviços ligados ao turismo, no único restaurante da terra e no estacionamento.
Um investimento pensado para provocar mudança
Quando decidiu avançar com os passadiços de São Mamede de Ribatua, o município de Alijó sabia que estava a investir numa infraestrutura turística capaz de desencadear novas dinâmicas económicas num território marcado pelo despovoamento.
José Paredes, presidente da Câmara Municipal de Alijó, conhece bem essa realidade. Filho de agricultores, criado no concelho, e com formação em Agronomia, fala do território com a familiaridade de quem o percorreu desde criança. Desde que assumiu funções executivas no município, em 2013, fez da recuperação financeira da autarquia e da captação de fundos comunitários uma das suas prioridades. Revela que herdou uma câmara fortemente endividada e viu nos programas europeus uma ferramenta fundamental para recuperar capacidade de investimento. No município de Alijó, de um orçamento global de cerca de 30 milhões de euros, 19 milhões provêm de fundos comunitários.
"Alijó posiciona-se como um dos principais municípios de Trás-os-Montes na captação de fundos comunitários para o desenvolvimento do território", afirma.
Os passadiços acabaram por se tornar um dos exemplos mais emblemáticos dessa estratégia. Tendo sido inicialmente previstos no quadro de um financiamento comunitário ligado às compensações associadas à exploração hidroelétrica do Douro, atrasos de natureza administrativa obrigaram o município a decidir avançar sozinho, como nos contou o presidente da autarquia: "Não hesitei porque estava de tal forma convicto de que seria um sucesso para o município de Alijó, para o território, para a região, e até para o país. Porque, hoje este investimento vai catapultar Alijó em matéria turística para um patamar nacional e, diria mesmo, já quase internacional. Não tenho a menor dúvida. Alijó já se posiciona como um dos principais municípios do país naquilo que é a atratividade turística. Só para lhe dar uma ideia, São Mamede de Ribatua, uma aldeia relativamente pequena com pouco mais de meia centena de habitantes, ao fim de semana recebe 2 a 3 mil pessoas. Tem sido um sucesso muito grande e espero, obviamente, que a economia local saiba tirar partido desta oportunidade. Esta é uma provocação à capacidade empreendedora da população local."
A expressão surge várias vezes ao longo da conversa. A Câmara Municipal cria as condições, explica, mas a resposta terá necessariamente de surgir através da iniciativa privada, da criação de alojamentos, restaurantes, serviços turísticos e pequenos negócios capazes de aproveitar a procura gerada pelo novo equipamento.
"O município faz aquilo que lhe compete, que é criar condições para que a economia local tire partido destas oportunidades."
Apesar dos sinais positivos, o autarca reconhece que o desafio é enorme. O concelho perdeu cerca de 1500 habitantes na última década e continua a enfrentar dificuldades na fixação de população jovem.
"Um território sem gente é um território condenado a morrer."
Por isso, defende políticas públicas mais agressivas para o interior, desde incentivos fiscais à habitação e à natalidade até mecanismos de discriminação positiva capazes de contrariar décadas de concentração de recursos no litoral. Os municípios do interior não podem resolver sozinhos este problema:
"Sem medidas arrojadas e impactantes, promovidas pela tutela, não é possível inverter esta tendência. É uma luta muito difícil para os municípios, que dificilmente trará os resultados desejados. Tem de haver uma aposta muito forte no interior, uma discriminação positiva, para conseguirmos atrair população. Um país sem gente é um país com tendência a morrer, e o interior corre esse risco."
Parque Regional do Vale do Tua: preservar para desenvolver
Compreende-se melhor a importância deste investimento nos passadiços, se tivermos em conta a forma como o pedestrianismo e a valorização dos percursos pedestres, se tem afirmado numa estratégia mais ampla de relação com o território, onde se integra o Parque Regional do Vale do Tua.
Criado em 2013 como medida compensatória pelos impactos da Barragem da Foz do Tua, o parque envolve os municípios de Alijó, Murça, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor e Mirandela, abrangendo mais de 20 mil hectares de território protegido.
A sua gestão é assegurada pela Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Tua, entidade intermunicipal presidida atualmente pela Câmara de Alijó. À frente da direção executiva do parque encontra-se António Luís Marques. Formado em Turismo e Marketing, com experiência autárquica na Câmara Municipal de Murça, ligado ao associativismo e à dinâmica intermunicipal, vê o território como uma combinação singular entre património natural, comunidades humanas e identidade cultural.
"Estamos a falar de uma das áreas protegidas do país com maior biodiversidade. O que nos responsabiliza, pela sua importância não só nacional, mas também internacional. Mas também temos outras dimensões. Temos património rural, temos aldeias, temos comunidades e formas de vida construídas ao longo de gerações."
No decorrer da conversa, António Luís Marques regressa frequentemente a uma ideia central: a paisagem que hoje atrai visitantes não existe por acaso.
"O Vale do Tua é aquilo que é hoje, esta paisagem cuidada e tratada, porque houve comunidades que nos trouxeram este legado. E, portanto, não há nenhuma ação do parque que não considere como primeiros parceiros aqueles que vivem e trabalham neste território. É preciso que quem está no parque sinta que vale a pena fazer parte dele."
A estratégia passa também por transformar recursos naturais e patrimoniais em oportunidades económicas para quem vive no território.
Diz-nos: "Estarmos a falar de proteção e preservação não significa que não estejamos a falar de economia e de valor. Estamos a falar de um turismo responsável. Até porque nós temos a possibilidade de ter um turista que encaixa perfeitamente nesta filosofia. Que é alguém que respeita e gosta da natureza, que gosta do contacto com as comunidades e que gosta de estar e pernoitar, ficar e consumir. Não partilhamos o território como sendo um território de passagem. É um território de vivência, de permanência e de contacto."
Essa visão traduz-se numa aposta em segmentos de turismo de natureza altamente especializados: percursos pedestres, observação de aves, programas de educação ambiental, caminhadas interpretativas, uma rede de miradouros, iniciativas ligadas à biodiversidade e projetos de astro turismo.
"O Vale do Tua tem matéria-prima para aquilo que é um produto genuíno, muito particular, que só se pode consumir aqui."
Há ainda a destacar, na atividade do parque, diversos projetos de educação ambiental junto das escolas e das comunidades locais. Bem como o Festival de Percursos Pedestres, considerado o maior do país, uma das suas principais bandeiras, distribuído pelos cinco municípios ao longo de vários meses. Diz-nos António Luís Marques:
"Em Portugal não há nenhum que tenha esta dimensão. Começa em março ou abril e vai até outubro, novembro, passa por cinco municípios, tem fins de semana esgotados, envolve uma série de parceiros e dinâmicas locais."
Desenvolvimento, identidade e comunidade
Tanto o Município como o Parque Regional convergem numa preocupação comum: garantir que o crescimento turístico não compromete os valores que tornam o território único. O turismo é visto como uma ferramenta de valorização ambiental, e certificação assumida como muito importante quer pelo Parque, quer pela Autarquia, como nos contou José Paredes:
"Vêm pessoas de todo o mundo ao Vale do Tua para observar as aves, a fauna, a flora e também as estrelas. Somos um destino certificado em matéria de observação de estrelas. É um turismo muito exigente que também pode imprimir dinâmicas de preservação. Nós precisamos de gente, as pessoas também são vigilantes, são observadoras, vêm para observar, mas também vigiam. Sem o ambiente nada disto faz sentido. Os passadiços não são só para passear, são para contemplar, para valorizar e preservar. Temos de conseguir este equilíbrio."
Ao mesmo tempo, o aumento da procura obriga o território a adaptar-se. Surgem novas necessidades de alojamento, aumentam serviços de animação turística, transportes e atividades de natureza. Pequenos empresários começam a olhar para os passadiços como uma oportunidade.
É o caso da Grapeland, empresa de animação turística, com sede em Alijó, que desde 2017 se dedica a experiências no Douro, com serviços dedicados a um público premium, com passeios, experiências gastronómicas, piqueniques com produtos locais, atividades ao ar livre. Cerca de 90% dos seus clientes vêm dos Estados Unidos da América. Paulo Magalhães, sócio fundador e gerente da empresa, formado em Turismo entre Coimbra, Mirandela e Polónia, vê nos passadiços uma oportunidade para a economia local. Entusiasmado, está apostado em desenvolver um novo produto turístico, mais fresco e acessível, com jeeps descapotáveis e música. Diz-nos: "O investimento público está feito, agora é a vez dos privados fazerem a sua parte. Era importante haver uma ligação mais estruturada entre público e privado, por exemplo que a autarquia conseguisse criar um gabinete de mediação empresarial, que houvesse um trabalho em rede entre as várias áreas de atividade."
O único restaurante da terra: O Vizinho
Susana, 61 anos, e Aurélio Rodrigues, com 63, mesmo trabalhando paredes meias com a Porta de Entrada de São Mamede de Ribatua, nunca percorreram os passadiços. Desde a inauguração, a 29 de março, as suas vidas nunca mais foram as mesmas. O restaurante O Vizinho, do qual são proprietários e onde trabalham, tornou-se pequeno para atender os magotes de gentes que aos fins de semana enchem a aldeia. Ele é de São Pedro do Sul, ela é da terra, casaram-se há quarenta anos, Aurélio trabalhava na construção civil, Susana servia num restaurante onde ele almoçava. E um dia ele deixa-lhe um bilhete debaixo da chávena do café. É Susana que conta:
"Dizia: 'quero falar contigo'. Perguntava se eu queria sair com ele. Eu li e disse-lhe assim, nunca me esquecerei: 'Atrás do tempo, tempo vem.'"
E assim foi. Atrás do tempo, tempo veio: ele seguiu-a, não descansou enquanto não falou com ela, ela achou-o simpático. Susana gosta de falar, de conversar, Aurélio, mais recatado, fala por monossílabos, gosta de ouvir. Há quarenta anos que se complementam, uma família, filhos, e desde 29 de março um rodopio sem parar, no único restaurante da terra, mas já com página no Instagram e Facebook, criada pela neta. Uma família unida também pela música, filhos e netos tocam na Banda Filarmónica de S. Mamede de Ribatua, uma das mais antigas do país, em atividade desde 1799.
São Mamede de Ribatua: "aldeia feliz"
Há alguns anos, durante uma noite de festa, dois adolescentes decidiram acrescentar duas palavras ao nome inscrito na placa de entrada da aldeia. Com um marcador escreveram: "Aldeia Feliz."
A tinta desapareceu com o tempo. O nome ficou. Durante vários dias de reportagem, a expressão reapareceu sucessivamente nas conversas com os habitantes, com os autarcas. Quase como uma marca identitária, uma forma simples de explicar a relação que mantêm com o lugar onde vivem.
Hoje, essa felicidade parece ganhar novas razões. Talvez seja cedo para dizer se os passadiços conseguirão inverter décadas de perda de população e de oportunidades. Mas já é possível perceber que estão a produzir algo que os números nem sempre conseguem medir: uma nova confiança no futuro.
Num território habituado a falar de partidas, há finalmente histórias de chegadas. E isso, para uma aldeia do interior, pode ser o primeiro passo de um futuro melhor.
Joaquim Paulo Nogueira


