Histórias da Minha Terra

Candal

Silêncio que se ouve entre montes e vales

Povoação sossegada com vista privilegiada para a serra da Arada, no concelho de S. Pedro do Sul, distrito de Viseu, com cerca de 30 habitantes, quer receber mais visitantes que insuflem mais vida à aldeia. Parece quase um anúncio de jornal de quem procura uma relação séria e comprometida com os lugares de baixa densidade — mas Candal, eleita Aldeia dos Sonhos, idealiza dias preenchidos com gente que leve ao interior uma centelha de esperança

 

O encontro com os habitantes de Candal está marcado no cruzeiro. Do topo avista-se a igreja matriz, as casas da aldeia e os seus telhados de xisto. Podemos, ainda, observar dali outras aldeias, como a Póvoa das Leiras e a Coelheira. A serra pode ser contemplada numa panorâmica de 360 graus. Respira-se fundo. O ar é diferente. Inspira-se e expira-se demoradamente. Uma e outra vez. O relógio parece ter parado. Não parou. O toque do sino lembra as horas que vão passando sem delas darmos conta. Entre palavras que se enlaçam, e recordações, umas melhores do que outras, escrevem-se histórias de vida com denominadores comuns: trabalhos no minério, na floresta, e em terras de renda; famílias emigradas, pais e filhos longe uns dos outros, e as saudades dos netos.

Ai, as saudades, esse sentimento profundo dos portugueses arreigado numa espécie de código genético, é ali evocada e misturada em tempos do passado, do presente e do futuro. Saudades do que se passou, do que se vive e do que está para vir. Esta passagem pela vida, em cruzamentos emparelhados, é motivo de conversas, umas mais leves, outras mais fundas, naquele lugar onde ainda se tem tempo para falar, com simplicidade, sobre as coisas da vida. Da vida que se conhece e da vida que se imagina para lá dos montes e dos vales.

Vidas de trabalho

Gracinda Pinho, 91 anos, conta nunca ter saído dali. "Sempre estive aqui, e gosto muito. Os meus pais e cinco dos meus filhos foram aqui enterrados." Uma existência num só lugar — e labuta não lhe falta para ali continuar, com motivação para acordar todas as manhãs, mesmo com as nove décadas de vida preenchidas: "Guardo as vacas do meu genro. Eu também já tive seis vacas — sempre fui uma pessoa de trabalho. Trabalhei nas terras, e tive 11 filhos. Andei a podar as videiras e gosto de andar assim."

Alguém faz questão de sublinhar que, logo cedo, "quando se levanta, já vem com o saquito ao lombo com a lenha". A nonagenária sente-se útil, ajudando a família, um dia depois do outro, enquanto contempla a terra onde foi criada: "A aldeia é linda!", exclama Gracinda, com a convicção de quem habita na melhor terra do mundo, de acordo com as suas lentes e os seus sentimentos.

A sua filha, Benta Pinto, 52 anos, que "também trabalha nas terras", diz que esta aldeia "tem tudo de bonito". Não esconde que é "dura" a lavoura, mas "tem de ser", faça chuva ou faça sol, em dias de nevoeiro e em dias soalheiros. Lavrar, cultivar, colher. Preparar, plantar e apanhar o que dá a terra. E é assim que o tempo vai passando numa aldeia que, salienta, até "as pessoas são bonitas; tudo é bonito". Gosta de ver, em especial, "os muitos caminhantes" que percorrem os trilhos pedestres que dão mais passos para algum desenvolvimento do mundo rural. Pelo menos, suscitam a vontade e a curiosidade dos que lá estão.

Por falar em curiosidades, há uma associada ao nome Benta e Bento por algumas terras portuguesas. O sétimo filho, menino ou menina, era batizado com esse nome. Bento ou Benta, que significa "abençoado(a)", "bendito(a)". Saberes que vão sendo transmitidos, de geração em geração.

Memórias que perduram no tempo

A vida de antigamente, naquela aldeia, era mais movimentada — mas se era, mais ou menos, "abençoada", a perspetiva depende de cada um, consoante as vivências e crenças. Apesar de um passado pesado de muito trabalho, Marcolina Cristóvão da Silva, 86 anos, sente-se hoje mais leve e feliz, sobretudo quando as filhas e os netos regressam de Orly. "Gosto de viver aqui, estou sozinha o ano inteiro. As minhas filhas querem que eu esteja em França. E os meus netos são maravilhosos — ainda agora esteve cá um para ver um jogo de futebol. Os meus netos, quando me telefonam, e dizem 'vó, vou passar aí', eu digo 'ó filho, anda'." É uma alegria ver a descendência, mesmo que seja por pouco tempo. Faz com que tenha valido tudo a pena.

Conversadora nata, a octogenária lembra, com a leveza de quem superou o peso que ficou lá atrás: "Andei muito tempo na floresta, andei ao minério... fui logo para o minério quando tinha 10 anos." No período da Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra, a agitação daquela aldeia e das localidades próximas foi marcada pelas minas de volfrâmio. Aqueles lugares viviam em função da exploração mineira, inglesa e alemã, dinamizando, também, espaços de alojamento e tabernas que abriam aqui e ali. "Era um mundo de gente", recorda Marcolina.

"A gente trabalhava a semana inteira ao minério. Ao domingo, em vez de irmos para o passeio, não. Trabalhávamos todo o dia a pegar o minério... Depois, a gente ia vender — quase sempre a Cabreiros [aldeia próxima]. A seguir, veio a floresta. Íamos todo o dia para aquele alto [aponta, a partir do cruzeiro de Candal]. Na floresta, era com uma enxada... Uma fileira de 50 pessoas, tudo a roçar o que se via na frente, de sol a sol, e só ganhávamos 12 escudos." Memórias que conta, de forma acelerada, alto e bom som, para que estas histórias de vida não sejam esquecidas com a passagem do tempo.

Agora, as rotinas no campo são "leves" para esta mulher. "Trabalho um bocadinho para ter umas batatinhas, umas cebolas, um feijãozinho de baja... O feijão baja é o feijão verde. A gente diz: 'Olha, vamos às bajas'." E a vida vai passando. Feijão a feijão se nutrem os dias. Uma espécie de proteína que dá músculo para viver o quotidiano com resistência.

Respirar ar puro

António Campos, 83 anos, é um homem alto e magro, e fala com a firmeza de quem passou por muito. Viveu mais de cinco décadas longe da sua terra. Esteve em França e na Arábia Saudita, "fazendo um pouco de tudo na construção". Voltou ao seu lugar, já depois da reforma. E conta, com graça: "Quando me reformei, disse para a minha mulher: 'Não fico aqui nem mais um dia.' Ela respondeu: 'Ah, mas eu ainda não tenho a minha reforma.' Esperei quatro anos por ela e viemos os dois. Não há nada como estar na nossa terra." Já depois de vir para a sua aldeia, a filha ajudou o pai a editar um livro de poemas. Ao correr da pena é o título da sua obra. Escreveu a vida toda e "ainda tem uns 15 kg de cadernos" com o que a sua inspiração ditou em dias bons e menos bons. Os poemas falam de amor e de paisagens, sobretudo as de Candal.

O que Candal tem de especial, para os que nela vivem, para os que querem regressar e os que desejam visitar? — perguntamos. "O ar, a água e o silêncio, que é a melhor coisa do mundo. Aqui respira-se ar puro, olhamos para um lado e para o outro e parece um panorama. Mas, acima de tudo, o silêncio vale tudo. Quem vem das grandes cidades, adora. Quando era novo, vinha gente de todo o lado, e os bailes eram até de madrugada", lembra, com um sorriso maroto.

Este homem acalenta o sonho de ver mais pessoas da cidade a quererem conhecer e a permanecer na sua terra: "Era bom, mas infelizmente há pouca gente. Agora já estão a começar a vir. Esta terra é boa, mas é preciso trabalhá-la — e não há terras largas para o trator", observa. Em qualquer aldeia, por onde temos passado, todos nos dizem que gostariam de ver mais gente, quer a visitar quer a habitar os territórios de baixa densidade — e acolhem com a hospitalidade portuguesa que nos faz sentir em casa.

Talento para acolher e cozinhar

Com a arte de bem-receber, e o talento de quem sabe cozinhar os pratos tradicionais no forno a lenha, que perduram na memória gustativa, vamos ao encontro de Ana Martins, 71 anos, que chegou a ir a Nápoles para divulgar um livro, que teve edição italiana, onde foram publicadas as suas receitas e as de outras senhoras da região. Provámos o cabrito à moda de Candal, o arroz e as batatas, tudo preparado no forno, e umas rabanadas regadas com mel que permanecem naquele lugar interior, onde guardamos os sabores que são lembrados por onde quer que circulemos e até partilhamos com a família e os amigos: "Olha, ali, naquela terra, come-se muito bem." Podem ser os ingredientes de qualidade, a forma de confeção, mas talvez a entrega de quem nos recebe, com afeto, seja o segredo para refeições inesquecíveis. E, até, as histórias de vida que nos contam, as partes que podemos revelar e as que ficam só para nós.

Ana Martins teve o marido emigrado, em França e no Gabão. Ela permaneceu em Candal, para criar os filhos. "Para mim esta aldeia é igual às outras, só que a gente não teve possibilidades para sair. O que ela tem de especial é que é a nossa aldeia, onde nós vivemos, onde tivemos momentos felizes e menos felizes, mas vamos em frente." Os filhos, em França e no Porto, podem provar iguarias em muitos outros locais, mas dizem-lhe que "não é igual" ao que a mãe sabe cozinhar. A comida de conforto é a que nos leva tantas vezes para os lugares que consideramos seguros.

Saberes dos sabores

Por aqueles lados também se fica saciado com um "caldo, onde se bota um bocado de feijão, batata e couve", uma broa de milho e a conhecida "vitela à moda de Candal". Há saberes em cada um dos sabores que revelam pedaços da cultura de cada terra. Em tempos chegou-se ali a tapar o forno a lenha com excrementos de vaca. "Aquilo não ia para a broa", garante Ana, que explica que "era para o vapor não sair".

António quer voltar a falar para partilhar a sua experiência com a inusitada 'porta' do forno. "Mal o forno estava a arder, a minha mãe dizia-me assim: 'Quero tapar a porta do forno.' Eu não queria lá ir [risos]. 'Vai à bosta, senão meto-te dentro do forno.' E eu ia. O barro não é tão bom como a bosta, que tem mais humidade e não coze tão bem o pão. Era uma mania", conta.

As histórias de antigamente cruzam-se com as do presente, mas todas desembocam na vontade de se querer — muito — ver mais pessoas para os escutarem e conhecerem a terra onde são felizes. "Falta mocidade", insiste António. "Ao menos, para fazer uns bailes e frequentar os cafés", acrescenta. É por isso que contam os dias para o regresso dos emigrantes, dos filhos e netos da terra, para voltarem a dar vida à aldeia. Enquanto não chega o ansiado mês de agosto, vão vendo passar os caminhantes das diferentes rotas que cruzam com os caminhos de Candal. Há trilhos para gostos e objetivos diferentes.

Histórias com devoção

Uma outra subida, com mais memórias das tradições desta terra, e com uma vista de tirar o fôlego junto de uma cruz alta de pedra, leva-nos a conhecer uma história que envolve o Pe. João Figueiredo, que foi "um dinamizador da aldeia", segundo os seus habitantes. Em 1949, uma grande seca desesperou todas as terras ali à volta. Não havia água para as regas nem para os animais. Várias aldeias juntaram-se e rezaram uma ladainha, "com devoção", frisa Cristina Pinho, 53 anos, responsável pela casa comunitária de Candal e pela chave que abre a igreja matriz.

Os habitantes das diferentes aldeias decidiram encontrar-se junto ao campo de futebol de Candal e subir em procissão até àquele lugar, de onde se veem várias povoações e um verde da serra que perdura na retina. Segundo contam, logo depois da procissão, após a eucaristia celebrada naquele lugar, quando começaram a descer, "veio uma grande trovoada, que encheu os rios". E assim ficou a tradição de, anualmente, na primeira sexta-feira de junho, subirem o monte em procissão. Durante muitos anos foi o que sucedeu. Hoje, os tempos são outros, com novas vontades. Há quem lamente que essa tradição já não se cumpra, como antigamente. É o caso da Cristina, que gostaria que essa procissão voltasse a Candal e às aldeias vizinhas.

Questionamo-la sobre o que faz uma pessoa de 53 anos, naquela aldeia, ter vontade de permanecer naquele lugar. Responde que os seus desejos estão a ser realizados ali. "A maior parte do meu trabalho é na agricultura, tenho muitos animais e é do que sobrevivo. Tenho vacas arouquesas e vitelos. Crio frangos e porcos. Sinto-me muito bem aqui. E o ar da serra é muito importante", retorque.

Cristina é mãe de dois filhos, um está na universidade outro na escola secundária, e são eles que a ajudam, nas férias escolares, a dinamizar a casa comunitária de Candal, que reúne gente para tomar um café e trocar dois dedos de conversa. A aldeia fica mais viva naqueles dias. Tudo ganha novo impulso. Uma esperança que querem agarrar para o futuro, quando tiverem visitantes a pernoitar naquele espaço, que está previsto ser, também, de alojamento turístico.

Água viva

Luísa Jesus de Campos, 95 anos, está atenta a todos os diálogos que se vão tendo sobre a sua aldeia, as suas gentes e tradições. Não interrompe, não entra em conversas cruzadas e aguarda, pacientemente, a sua vez para falar. Está sentada, junto à casa comunitária. Depois de referir a idade, confessa: "Nunca pensei chegar aos 70, quanto mais aos 95 anos, com os males que passei. Tive o meu marido numa cadeira de rodas e a minha mãe doente em casa. E eu tive uma trombose, e ainda estou aqui. Comecei com sete anos no minério e depois na floresta. Fazia as terras de renda e as minhas, e ainda tinha duas vacas", relata, de rajada, com uma frescura surpreendente.

Nas mãos de Luísa está o livro Venho lá de cima da serra — modas do Candal, com músicas antigas da terra: "Vinha cá gente de Lisboa para eu cantar e, até, para lhes cozer broa de milho. Levavam-me tudo. Por cá não havia ninguém que fazia o que eu fiz." Pedimos-lhe para cantar um bocadinho a moda que quisesse. Escutámo-la, com a voz segura de quem está habituada a fazê-lo, a cantar a Senhora das Dores, que terminava assim: "Que fonte tão boa e com água tão bela vieram os anjos e beberam nela." A padroeira de Candal é a Nossa Senhora da Natividade, que dá nome à igreja matriz. E no dia 8 de setembro, festa desta e de muitas outras terras, data em que se assinala a Natividade de Nossa Senhora, todos esperam ouvir cantar a nonagenária Luísa.

Na despedida, ainda a escutámos a cantar outra moda: "Adeus, lugar de Candal, pequenino, mas tem graça, tem uma Fonte das Terças que dá de beber a quem passa." E é, precisamente, no momento de dizermos adeus a esta aldeia, que paramos na Fonte das Terças para dali beber. Dizem-nos, com uma certa vaidade, que vêm pessoas de todo o lado para levarem a água fresca desta fonte. Quanto mais água dali levam, mais vida jorra em Candal.

Sílvia Júlio

“Entusiasmo" para viver os sonhos

Candal foi eleita Aldeia dos Sonhos da Fundação Inatel e os seus habitantes vão usufruir, de 18 a 20 de setembro, de passeios pelos lugares que escolheram para viver os seus “sonhos turísticos”: visitar o Porto e desfrutar de diferentes experiências a Norte. A União de Freguesias de Carvalhais e Candal foi a entidade responsável pela candidatura. Adriano Azevedo, 65 anos, presidente da UF e diretor do Agrupamento de Escolas de S. Pedro do Sul, diz ser “merecido que estas pessoas tenham a possibilidade de ter algum momento de descontração e poder visitar aquilo que para elas é um sonho”. Nota que a população está “entusiasmada” para o passeio. “[Os habitantes] faziam uma excursão ou outra, muitas vezes iam a França a casa dos filhos, e não conhecem o Portugal que somos, de forma geral, a não ser através das notícias”, observa.

Os locais transmitiram que “gostariam de fazer um passeio de barco, visitar um estádio de futebol, assistir a um concerto – nunca viram a não ser pela televisão. E quando nos apercebemos de que havia esta oportunidade, através da Fundação Inatel, de proporcionar a estas pessoas um conjunto de experiências e sonhos que não imaginariam vir a conseguir realizar, fizemos a candidatura”.

Candal candidatou-se com o slogan “Viver, sonhar e escutar a serra”. Porquê esta escolha de palavras? – perguntamos. “Sentir e escutar a serra é determinante para nós; escuta-se o silêncio, a natureza. Escutam-se as aves e, até, os festivais, as festas e romarias. Escutamos pessoas de todo o mundo. Aqui, a serra da Arada faz fronteira com outras serras, a da Freita e de Montemuro, e nós encontramo-nos numa bacia que é um hino à natureza”, responde Adriano Azevedo. O autarca e os candalenses têm, ainda, outro sonho que esperam que se possa concretizar em breve: “Ter mais visitantes.” Acrescenta o presidente da UF de Carvalhais e Candal, “queremos que as pessoas comecem a beneficiar economicamente desta abertura – é uma aldeia que quer novamente afirmar-se, enquanto local turístico e ambientalmente sustentável”.

Recorde-se que o programa “Aldeia dos Sonhos” foi criado em 2014 e dirige-se a povoações com menos de 100 residentes, cujo objetivo é proporcionar a estas pessoas, num primeiro momento, a possibilidade de realizarem sonhos de cariz social, cultural, desportivo e turístico. Segue-se a promoção da notoriedade cultural e turística da aldeia vencedora. Este ano, com o apoio do Turismo de Portugal, venceram, pela primeira vez, três aldeias: Candal (S. Pedro do Sul, Viseu), Vilares de Vilariça (Alfândega da Fé, Bragança) e Póvoa de São Cosme (Oliveira do Hospital, Coimbra).

SJ