Histórias da Minha Terra
Marvão
De onde se vê o mundo
Os marvanenses são os principais embaixadores da sua terra. Falam da vila raiana de Marvão com o orgulho próprio de quem sente estar a viver numa “pérola”, no distrito de Portalegre, no Alto Alentejo, com uma cultura e paisagem únicas e com a convicção de que dali “vê-se a terra toda”, como escreveu Saramago
A subir a rua das Portas da Vila, a caminho da praça do Pelourinho, junto do seu espaço de restauração, está Fernando Rosado, 62 anos, com o ar descontraído de quem está a viver e a trabalhar num lugar que é uma espécie de varanda, onde se avistam paisagens que se guardam nas boas memórias do Alto Alentejo. Fernando começa por contar: “Este foi o largo que me viu nascer. Nasci na casa que tem o telhado inclinado. Os meus pais tiveram ali um comércio, uma taberna e mercearia – para aí, uns 60 anos. A vida nas décadas de 1950 e 1960 era diferente”, recorda.
Dos pais herdou o espírito para lidar com o público e, hoje, este empresário, para além daquele restaurante tem também outros espaços de hotelaria e restauração em Marvão, empregando mais de 40 funcionários – “65% do mercado marvanense; somos o principal empregador”, salienta. Um empreendedor que conseguiu transmitir à descendência o gosto pela expansão desta área de negócio.
Permanecer na vila medieval é fonte de estímulo para o futuro, onde se abrem os olhos para amplos horizontes. Lembra as palavras de José Saramago, no livro Viagem a Portugal, “de Marvão vê-se a terra toda”. Fernando Rosado, dali da praça do Pelourinho, junto ao miradouro, mostra o esplendor da paisagem. “Daqui vemos a serra da Estrela, quando está cheia de neve – até parece mentira. Estamos a 180 km do pico da serra da Estrela. Aquela zona ali – aponta – é Castelo Branco. Do lado direito temos Valência de Alcântara, Espanha.” A “terra toda” é resumida ali, mas da torre de menagem do Castelo, a quase 900 metros de altitude, os olhos abrem-se ainda mais para o mundo.
O sexagenário gosta de recordar, ali, a sua infância no lugar que o fez sonhar por um futuro alargado. Evoca as brincadeiras no Castelo, quando ele e os amigos saíam da escola, sobretudo em dias de nevões: “Fazíamos bolas de neve do Castelo até à árvore perto do Pelourinho.” Bons tempos que gosta de guardar, de uma altura em que os mais novos se entretinham a brincar na rua. Queria ver, na atualidade, mais juventude por ali. E lamenta que “haja cada vez menos gente em Marvão, porque as pessoas mais idosas vão falecendo; a malta nova não se vai fixando, não há grandes hipóteses de trabalhar aqui senão na hotelaria e restauração”.
Pessoas que mantêm a tradição
Pessoas. São as pessoas que fazem os lugares. São as pessoas que perpetuam a história dos lugares e acrescentam novas histórias que fazem crescer cada terra. Por mais que o tempo vá passando há, ainda, tradições que ainda são o que eram, como a gastronomia alentejana que vai passando, de geração em geração, com relatos que lembram outros tempos: “As migas com carne de porco frita são um prato típico e uma comida sustentável, porque as pessoas que antes trabalhavam no campo tinham de ficar bem alimentadas. A alhada de cação também era um prato de sustento. O cação vinha no comboio até à estação de caminhos de ferro de Beirã, agora desativada – era o que aguentava mais, quando não havia arcas frigoríficas. Ao cação juntava-se farinha para o molho ficar grosso – acompanhava com o pão de há uma semana e era uma comida muito forte.” A estes pratos tradicionais juntam-se o ensopado de borrego e o cabrito.
Para terminar uma refeição, nos dias de hoje, por ali, pode saborear-se uma sericaia de castanha. “Todo o ano temos a castanha presente. A castanha é uma base de alimento.” Os pastéis e os crepes de castanha na região podem ser degustados pelos apreciadores naquelas paragens. A Feira da Castanha, no segundo fim de semana de novembro, é um dos eventos que traz mais pessoas a Marvão.
Por cada rosto que ali passa, ilumina-se uma nova esperança para a terra. “Marvão precisa de mais corpo e alma; precisa de mais investimento a nível de turismo, de mais cuidado nas casas – porque há muitas abandonadas”, afirma o empresário Fernando Rosado.
As casas caiadas de branco, com portas e janelas em cantaria de granito, despertam curiosidade por serem diferentes das habitações típicas alentejanas, com a barra azul ou amarela. Perto do Pelourinho, na rua do Relógio, na loja Olaria de Maria Joaquim Bonacho, é possível ver a artesã a pintar ao vivo as casas típicas, em telhas. Encontramos a mãe da artesã, Ana Maria Bonacho, 73 anos, que ajuda a filha a moldar o barro. Naquele momento estava a pintar a frontaria de uma casa de Marvão. Que características tem a casa que está a pintar com um cuidado minucioso? – perguntamos. “Tem janelas com flores, cores garridas, como o verde, castanho e azul. Antigamente, à volta das portas era pedra. Agora colocam as tintas areadas para fazer a imitação da pedra.”
Os turistas gostam de levar como recordação peças de artesanato, como aquelas telhas com as casas pintadas, os presépios ou os santos em barro. Questionamos a septuagenária sobre o que que mais gosta nesta terra. Com pragmatismo, responde: “Temos aqui tudo, não precisamos de sair para fazer compras e temos os serviços públicos, para além de ser uma vila pitoresca cá no alto.”
Criar raízes na terra
Uns metros acima, na rua do Espírito Santo, a Mercearia de Marvão, com produtos tradicionais. Licores e compotas de castanha, olaria alentejana, queijos e rebuçados de mel são alguns exemplos que dão mais sabor àquele espaço. À frente do balcão está Nuno Machado, 57 anos, que é militar da GNR. A mulher, proprietária do comércio, não estava por lá, mas o agente de autoridade fez as honras da casa, garantido a todos que podem visitar Marvão, à confiança, com a certeza de que é uma vila “bastante pacífica”. A esta loja chegam portugueses, espanhóis e outros turistas de “todas as nacionalidades”. Os bolos secos são um dos produtos mais vendidos no espaço comercial desta vila.
Nuno Marchado nasceu e permaneceu em Marvão. O guarda marvanense sente-se preso a este lugar por um certo sentimento inexplicável, que é, também, partilhado por muitos: “A pessoa cria sempre raízes à terra. É o apego que temos à terra que nos faz não querer abalar daqui.” Para o agente de segurança, este “é um lugar único, onde ainda se consegue desfrutar do silêncio”. Os eventos que levam mais gente à vila são o Festival Internacional de Música de Marvão, a Feira da Castanha e o Festival Al Mossassa. A influência islâmica na região está também na história pelo líder muçulmano Ibn Maruán, que deu nome a Marvão.
Entre os diferentes momentos que fazem parte da história de Marvão, o militar da GNR prefere destacar que, na Idade Média, Marvão era canto de homicidas. “Era tão duro morar aqui – e ainda é –, que às pessoas condenadas davam-lhes a opção de irem para a prisão ou virem para Marvão durante o tempo da pena. Aí se vê a dureza do que era viver aqui.”
Na Casa da Cultura, nos antigos Paços do Concelho, há apontamentos estilísticos manuelinos, onde se conservam memórias dos cárceres municipais. O estadista Mouzinho da Silveira trabalhou ali como juiz no Antigo Tribunal.
Cultura viva
Na rua do Castelo vemos João Roque, 38 anos, chefe de receção no hotel museu da pedra pólvora. O espaço tem peças de uma coleção privada. João vem de Portalegre todos os dias para ali trabalhar, “uma viagem que se faz muito bem por ser uma zona muito bonita”. Sente-se bem naquele lugar, porque, diz, “as pessoas que visitam Marvão vêm com um espírito leve e afável”. Quando regressa a casa, também ele sente essa leveza de que os forasteiros lhe transmitem e da “pacatez” da vila, que “tem uma cultura viva, muito antiga”. Trabalhar em Marvão é “bom”, porque também faz “bem” aos olhos, que se abrem à beleza da paisagem: “Gosto da imponência e da importância que tem esta zona. Marvão foi estrategicamente relevante. Já depois da Reconquista Cristã e de Portugal estar definido, foi uma zona importante para nos defender de Espanha. Era uma fortaleza quase intransponível”, acentua.
Enquanto caminhamos até ao Castelo, a descer estão duas famílias em visita. Vêm de Celorico de Basto, Braga. Do Minho para o Alentejo, sentem-se “maravilhadas” com “esta paisagem e grandeza do Castelo”, diz a mais comunicativa do grupo, Olga Carvalho, 45 anos, técnica superior na área de emprego e formação.
Subimos ao Castelo. Só se perde o fôlego pelas vistas da tal “terra toda”. Do jardim, pode mirar-se, noutro ângulo, a serra de S. Mamede. No largo de Santa Maria, conversamos com Ana Lúcia Carrinho, 43 anos, técnica do museu municipal de Marvão, que nos explica os bordados com castanha. Neste museu, aponta-nos para um quadro antigo de 1921. Mas é na Casa da Cultura onde estão mais bordados com a casca da castanha. “Temos lá mais de 30 inventariados. O mais antigo que se tem conhecimento é de 1912”, informa.
Ana Lúcia elucida que, “em grande parte dos quadros, o bordado é feito na forma de laço e muitos têm uma fotografia, um casal, uma madrinha, e a chave do caixão – pensamos que está associado a um simbolismo. Dizia-se, também, que a maior parte das noivas levava no seu enxoval um quadro feito com a casca da castanha”. Os visitantes de Marvão costumam perguntar-lhe se a casca da castanha é colada. Ela responde, para surpresa de muitos, que “a casca da castanha é toda bordada; é recortada e pregada no tecido, que pode ser o cetim – o que acontecia nos mais antigos. Hoje em dia fazem-se em linho ou meio linho.”
Esta mulher conta que também ela os sabe fazer e que aprendeu sozinha esta arte, enquanto ouvia e via a explicação durante um curso realizado através do município: “Olhando, percebi como é que as senhoras faziam. Depois, tomei a iniciativa de os ir fazendo. Não são perfeitos, mas já os tenho oferecido a pessoas amigas – até em casamentos. E dizem-me que isto é raríssimo.”
Pedras que contam histórias
Seguimos viagem até à Igreja Matriz de Santiago. No acolhimento está Sandra Paz, 49 anos. Sandra tem um apelido adequado ao lugar onde recebe, de braços abertos, os visitantes e lhes mostra, em especial, o restauro do altar-mor. Acentua a “a beleza simples”, mas, simultaneamente, “tocante”. A abóboda do século XVII, com a cruz de Malta ao centro e o retábulo-mor prendem o olhar. É um espaço de recolhimento que, para além da contemplação da arte sacra, tem outros intuitos – para muitos se sentarem e elevarem o pensamento.
Esta mulher nasceu na freguesia da Beirã. Vive em Marvão desde os dois anos. Recorda que ali se criou e constituiu família. Estudou, brincou e cresceu com cada pedra de Marvão que tem muitas histórias para contar. “Não tínhamos escorrega, mas tínhamos uma pedra ali fora [em frente à Igreja de Santiago] que era um escorrega.” Sandra, que hoje trabalha nos serviços gerais da igreja, já foi presidente da junta de freguesia de Santa Maria de Marvão durante 12 anos. Revela que foi no seu tempo de autarca que foi colocado o baloiço em cima das pedras que estão cheias de histórias de muitas crianças que ali brincaram, com uma paisagem que parece não caber dentro de um olhar rápido. Hoje, este baloiço é umas das atrações, onde muitos tiram uma fotografia para eternizar um dos momentos de visita.
Sandra quer continuar a ver mais pessoas nesta terra e nesta igreja, onde trabalha com motivação para responder às perguntas curiosas: “Acolhemos quem nos visita, recebemos muito bem. Quem nos visita faz parte de nós. Marvão é uma perolazinha que está a mais de 800 metros de altitude. Basta olhar para ela e para a sua envolvente – e isso já é uma história. Se sairmos pela porta da igreja e subirmos ao baloiço ou estivermos na torre de menagem do Castelo e olhar para o seu horizonte – isso já é outra história. Daqui vê-se o mundo.”
Dar asas à juventude
Mais, esta vila tem uma outra história que muitos falam e dizem que não há noutras paragens: “Não há vila nenhuma em Portugal onde se veem os pássaros pelas costas. E, em Marvão, nós vemos os pássaros pelas costas. Se nos encostarmos ali à muralha na Portagem, onde passa o rio Sever, se olharmos para baixo, vemos os pássaros pelas costas, porque gostam de viver em Marvão.” Se até os pássaros gostam de ali estar, quem sabe, pensa a Sandra, mais pessoas poderão querer viver e empreender naquele lugar do interior: “Para quem quer viver tranquilo, venha para aqui constituir família e construir uma empresa, porque poderá ter sucesso. Marvão é um canto interior do Alto Alentejo muito bonito e tranquilo.”
Já no final da visita, voltamos ao ponto inicial. As Portas de Ródão. Vemos uma mulher jovem no posto de turismo. Patrícia Andrade, 33 anos, de sorriso aberto, diz-nos: “Faz falta juventude e caras novas à terra. Dentro das muralhas de Marvão só habitam 100 pessoas.” Patrícia já trabalhou noutros locais, fora desta terra, mas confessa: “Volto sempre aqui.” E acrescenta: “Temos de agarrar a juventude para não deixar morrer a terra. Temos várias associações de jovens para tentarmos segurar as pessoas que venham para cá, porque nós gostamos mesmo disto”, frisa.
Patrícia conta que sente especial emoção quando dá voltas pelas muralhas e contempla a paisagem, porque tudo lhe lembra “a História do nosso povo, o que passámos, o que lutámos e quem protegemos, porque a vila cresceu de dentro para fora. Era uma fortaleza que depois se transformou em vila. E há 800 anos foi dado o primeiro foral a Marvão pelo rei D. Sancho II, em 1226”.
Os séculos passam e as pessoas continuam a escrever as suas histórias, mantendo a identidade que as trouxe até aqui. Outras gerações vão continuar a fazer ali história.
Sílvia Júlio


