Mário Augusto

“O cinema é uma janela de sonho”

Jornalista de televisão, desde 1986, autor e apresentador de programas de cinema, gosta de falar sobre a “magia” dos filmes, ao longo dos anos, com a mesma paixão de sempre. Numa deslocação à capital, o conhecido cinéfilo do Norte, e generoso contador de histórias, dispôs de um tempo para flanar por uma “rua cinematográfica” de Lisboa, para conversarmos sobre a “janela” aberta à ilusão, à arte, à vida

 

Iniciou a carreira na RTP, esteve na fundação da SIC, regressou à RTP, trabalhou na rádio, e colabora em jornais e revistas. Apresenta o antigo magazine de cinema, Janela Indiscreta, distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores, em 2018, como o melhor programa de entretenimento cultural da televisão portuguesa.

Há uns anos, é também colaborador do Cinema Fora do Sítio, projeto criado há mais de duas décadas, na delegação INATEL do Porto, com uma programação de sessões ao ar livre, em palcos improvisados em praças e jardins, nas noites de verão. Nesta edição, entre julho e agosto, há cinema em Gondomar, Santo Tirso, Baião, Felgueiras, Porto e Espinho.

Nasceu em São Félix da Marinha, e vive onde sempre viveu, em Espinho, “uma paisagem à beira-mar que não troca por nada.” Liberdade é o que sente junto ao mar?
Liberdade e, acima de tudo, tranquilidade. Muitas vezes quando vou para fora, e venho muitas vezes a Lisboa, sinto que estar ali, a olhar para aquele horizonte longínquo, me transmite tranquilidade. O mar tem essa capacidade de nos ajudar a refletir sobre as coisas.

O título do programa, Janela Indiscreta, foi uma escolha feliz.
Janela Indiscreta começou por ser uma rubrica que iniciei na rádio TSF, sobre a memória do cinema: descobrir filmes clássicos e esmiuçá-los de maneira a que as pessoas pudessem redescobri-los. Como é um dos filmes que mais gosto, Hitchcock tem uma forma de nos envolver com a história que funciona bem com o título, acaba por ser uma boa ligação para aquilo que pretendia fazer no programa: mostrar os filmes de outra maneira, de forma a despertar a curiosidade das pessoas, para verem esses filmes que vão estreando. É um programa de atualidades. Janela Indiscreta foi a intenção de ser indiscreto em relação aos filmes que estreiam. E, ao mesmo tempo, curioso e despertar a curiosidade em quem vê o programa.

E homenagear uma obra-prima de Alfred Hitchcock, com Grace Kelly e James Stewart, A Janela Indiscreta (1954)?
Sim, colateralmente acabamos por fazê-lo. Na verdade, o filme poderia ter-se chamado outra coisa, como acontece em muitos filmes, a tradução para o nosso mercado não é uma tradução literal, mas, neste caso, há uma conjugação feliz para tornar o nome eterno. Tentei homenageá-lo de alguma maneira também.

Ao longo da carreira fez milhares de entrevistas. Do seu livro Janela Indiscreta: O que dizem as estrelas, (Bertrand, 2019), elegemos Meryl Streep, “uma defensora da igualdade de género, lutando contra a discriminação profissional que é sofrida pelas mulheres”. Na entrevista, a atriz diz: “Não me preocupa essa coisa da beleza forçada, de quem quer aparentar uma idade que já não tem.”
É um bom exemplo porque a Meryl Streep é uma das que sempre gostei muito, e sei que as entrevistas são sempre muito interessantes. Ela é muito simpática e não soa a falso.
Além de ser grande atriz é uma daquelas pessoas que se percebe que é genuinamente apaixonada por aquilo que faz. Entrega-se aos papéis com naturalidade, aquilo sai-lhe naturalmente depois de trabalhado. É óbvio que por trás tem muito background.

O que recorda das suas conversas?
Acho que estive umas seis vezes com Meryl Streep, é naturalmente agradável nas respostas, percebe-se que reflete naquilo que está a dizer. E está sempre com a mesma naturalidade, com a mesma postura simpática.

Como foi vê-la na sequela de O Diabo Veste Prada 2?
É uma atriz que já não tem de provar nada a ninguém. Aquilo já lhe sai com um à-vontade, seja a fazer de má, ou Cruella, ela faz muito bem. Seja qual for a profissão, se a fazemos com paixão, a dada altura, é um desempenho mais natural.

Quase intrínseco?
Sim, quase intrínseco ao nosso papel. Nunca tentei fazer um papel de mim próprio, sou tal qual, quando falo mal inglês, quando corre mal… podia ter corrido melhor. Mas, estou sempre à procura de desafios novos, para me surpreender.

Nas páginas finais de Janela Indiscreta, revela: “Espero continuar debruçado na janela indiscreta, sempre curioso e com vontade de aprender sobre a vida, as estrelas e a arte mágica do cinema.” Esta vontade determinou o seu caminho?
Sem dúvida, a arte é uma consequência do trabalho. Não me estava a ver a ser jornalista desportivo, nunca pratiquei desporto, não tenho clube de futebol, não gosto muito de seguir esse fenómeno, por nenhuma razão. O cinema é uma janela de sonho, é uma coisa que nos permite ir para outro patamar da imaginação e da vida. Costumo dizer aos mais jovens, com quem vou falando sobre a profissão, que há uma regra essencial para este tipo de trabalho que faço – jornalismo, televisão, rádio, comunicação, ou mesmo escrita de livros – é ser essencialmente curioso. Ser muito curioso é a melhor escola de vida que podemos ter. Para se estar nesta profissão é preciso ter paixão, porque se não tiver paixão pode fazer outra coisa qualquer, e deve ir à procura de uma coisa que dê mais entusiasmo.

Essa paixão levou-o, em 2025, a fazer a produção e apresentação, com Luís Portela, da série documental “Para Além do Cérebro”, na RTP1.
Sim, dinamizei o projeto…

É uma série surpreendente.
Esse projeto surge de uma maneira muito curiosa. Sou amigo de Luís Portela, ele tem livros fantásticos que nos desinquietam. E como sou curioso sobre as coisas, li o Ser Espiritual, e descobri que nunca tinha pensado a vida naquela perspetiva. Um dia, disse-lhe: “Este seu livro dava uma série de televisão incrível”. Ele retorquiu: “Acha? Já me falaram disso, mas nunca me interessei muito. Mas, olhe, se for consigo, eu faço.” Então, respondi-lhe: “Vamos fazer!” Demorou cinco anos. A equipa andou por todo o mundo, a entrevistar cientistas e pessoas que desenvolvem experiências nas áreas da espiritualidade, psiquiatria e psicologia. E o resultado foi surpreendente, nunca se tinha feito nada com aquelas características, em Portugal.

No episódio Ciência e Espiritualidade, Etzel Cardeña, professor de psicologia na universidade de Lund, Suécia, afirma: “O facto de as pessoas nos enviarem desejos de melhoras pode afetar a nossa fisiologia, pode fazer com que melhoremos mais cedo do que se não o tivessem feito.” Esta ideia de “intenção da mente” faz sentido para si?
Acho que faz. Há uma expressão muito engraçada, antes de ter feito o documentário, e antes de ler coisas sobre espiritualidade, essencialmente para preparar este trabalho, nunca me esqueci de uma frase de um anónimo com quem me cruzei, uma vez, e me disse: “Vejo-o na televisão e gosto da sua maneira tranquila. Nunca se esqueça de que a vida faz de nós o que quer”. Essa expressão, diria que é profética em relação àquilo que nós queremos da vida. Já que ela faz de nós o que quer, porque não estendermos bem a carpete para que o caminho se faça com tranquilidade? Não sei se é verdade ou não, mas se for, é melhor desejar bem.

Em memória de um cronista da revista Tempo Livre, Eduardo Guerra Carneiro, escolhemos o livro Outras Fitas, para trazer à nossa conversa.
Era um grande cinéfilo e pensador...

Acerca de O Sabor da Cereja, o autor diz: “Embora se conte a história de um homem que quer suicidar-se […] ele pensa que também se procura contar a dificuldade de viver, que pode ser superada pela força e beleza que a vida encerra.” Recorda-se do filme?
Sim, perfeitamente.

O cinema de Abbas Kiarostami, considerado um dos mais importantes realizadores iranianos, marcou-o de algum modo?
O cinema que se faz nesses mundos menos cinematográficos, do ponto de vista de produção, acaba por nos surpreender sobre a vida mais do que qualquer outro de uma indústria de cinema americana. Aliás, desde a covid, o paradigma da produção de cinema americana mudou radicalmente. E por cada dez surpresas que temos com um filme, oito são filmes que não vêm da América, são filmes iranianos, africanos, nórdicos, mesmo a França tem a sua indústria.
Acho que o cinema tem uma função, que hoje desvalorizamos muito, mas que como espelho de vida, e esse é um bom exemplo, desinquieta-nos o pensamento para nos manter lúcidos sobre a vida. E tem uma coisa fantástica: Ninguém morre mesmo que a personagem morra. Mas, deixa-nos inquietos em relação a esta realidade do mundo. Os iranianos continuam a fazer cinema, mesmo perante o drama que vivem, e tentam fugir de lá. E, às vezes, conseguem surpreender-nos de uma maneira incrível, apesar das vicissitudes todas.

A dificuldade de viver superada através da arte.
Lá está, “a vida faz de nós o que quer”. Às vezes, temos de ter essa atitude proativa e positiva em relação à vida, mesmo que seja para alertar para coisas menos bonitas ou menos brilhantes.

Há pouco, falava do cinema francês, e é incontornável não falarmos de Jacques Tati. Qual é o seu filme favorito?
O que mais gosto é O Meu Tio. O Tati é um experimentalista da comédia, a partir da matriz do cinema de pantomima e mudo. Os filmes de Tati quase não têm diálogos, é tudo imagem, é tudo perceção. Hoje, sabemos que a origem do cinema, tanto de Tati como de Chaplin, está nos primórdios de comediantes franceses do início do século XX. Max Linder era uma grande inspiração para o Chaplin. Depois, a dada altura, os EUA tiveram essa capacidade de indústria americana de dominar a partir da matriz que lhe chega. Foi assim com Méliès, no início o Edison tentava replicar e fazer cópias piratas dos seus filmes. O Chaplin inspira-se nos comediantes franceses. E o Tati vai buscar à origem da comédia, do tempo do cinema mudo, alguma da sua pantomina. Também concordo que Tati é um dos grandes génios.
E no cinema francês mais recente, O Fabuloso Destino de Amélie [de Jean-Pierre Jeunet]. A mensagem daquele filme é de uma poesia incrível, o essencial está ali. Amélie vive para dar felicidade aos outros e, no entanto, não é uma história melosa, é uma história de fantasia. Há uma conjugação de fatores muito boa: todo o ambiente, a fotografia, a música, e a Audrey Tautou está perfeita, parece que nasceu fazer aquele papel.

Ainda a propósito das atrizes, o filme que marcaria o início do Cinema Novo português, e que foi exibido em 1963...
Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, com música original de Carlos Paredes.

Curiosamente, Almada Negreiros, convidado a escrever sobre o filme, diz: “A fotogenia inédita de Isabel Ruth e o espectáculo irredigível da sua actuação na humilde personagem, merecem ambas o título mais difícil entre os portugueses, o título de ‘a Portuguesa’” (Sobre Cinema, 2019).
Esse filme tem uma série de curiosidades. Primeiro, há uma inter-relação com o movimento francês da Nouvelle Vague, e toda a onda de jovens cinéfilos. O Paulo Rocha teve uma coragem incrível com Os Verdes Anos, desde logo, com a banda sonora que hoje conhecemos, a Isabel Ruth é revelada por ele, e a história é fresca para aquele tempo.

E, recuando no tempo, para a programação do Cinema Fora do Sítio, escolheu uma comédia musical (1959), de Manuel Guimarães.
Comecei a colaborar com o Cinema Fora do Sítio há uns anos, e questionava-me porque não passar mais filmes clássicos, com uma narrativa associada aos lugares...

Na génese do projeto, criado por Sérgio Marques, há mais de duas décadas, a narrativa cinematográfica era relacionada com o espaço circundante. Foram exibidos, entre outros, Porto da Minha Infância, de Manoel de Oliveira, na rua de Santa Catarina, Os Respigadores e a Respigadora, de Agnès Varda, no antigo Mercado do Bolhão, Chungking Express, de Wong Kar-Wai, na Estação de São Bento. Nesta edição, na noite de 31 de julho, é a vez de A Costureirinha da Sé.
No Largo da Sé, precisamente onde o filme foi rodado. Vai ser uma festa de certeza absoluta. O Cinema Fora do Sítio tem uma dinâmica curiosa, as pessoas levam cadeiras, bebidas, e fazem uma festa de cinema. Se fosse argumentista estava a imaginar as personagens, em fantasmas, ali misturadas com os espectadores, sentadas a ver as cenas...

A costurar e a comentar?
Exatamente. [risos]

E ainda propôs o Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, para 12 de agosto, em Espinho.
Sim, porque de alguma maneira tem a ver com a cidade. Muitas terras tiveram o seu Cinema Paraíso, não da mesma maneira, mas tiveram.

No adeus a junho, o vento do Norte sopra o poema As Noites do Porto, de Nuno Júdice: “Shakespeare podia ter vivido aqui. / Podia ter dançado na noite de S. João, / quando o rio transborda para as ruas nas correntes humanas que as inundam.”
Fiz muitas vezes as noites de São João do Porto, em reportagem, para a RTP. Fazer a festa em trabalho é sempre mais complicado. Confesso que já não tenho paciência, mas na juventude aquilo era divertidíssimo.

Lembra-se de A Paixão de Shakespeare, de John Madden?
Sim, lembro-me que ganhou vários Óscares...

O filme, com Gwyneth Paltrow, Joseph Fiennes, Ben Affleck, Colin Firth, Geoffrey Rush, Judi Dench, obteve sete Óscares.
Sim, foi incrível, é demais para o filme... Judi Dench ganha o Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo papel mais pequeno na história de que há memória na Academia. Ela aparece uns minutos e aquilo chegou para receber o prémio.

E na crítica de Luís Miguel Oliveira, é um filme “clamorosamente ‘anti-shakespereano’”.
Sou levado a concordar. Agora, por exemplo, quando olhamos para o Hamnet: a vida antes de Hamlet, é como água e azeite. Devemos ver A Paixão de Shakespeare como uma abordagem de ficção divertida.

Terminamos com uma vénia a Manoel de Oliveira.
Conheci muito bem. Produzi um documentário durante um ano inteiro. Para onde ele fosse, íamos com ele, se fosse para Paris, lá íamos nós. Nesse trabalho, com Sérgio Costa Andrade, fazíamos também entrevistas. A dada altura, levámo-lo para a Ribeira, precisamente para o sítio da famosa cena da boneca do filme Aniki Bóbó. Nunca mais me esqueci da pergunta que lhe fiz: “Agora a fazer 100 anos do que é que sente falta?” Hoje, aos 63 anos, começo a questionar e a valorizar a sua resposta: “Nesta idade, o que mais me faz falta é não ter pessoas do meu tempo para poder contar as histórias que vivenciámos. Os meus amigos morreram. Tudo o que possa dizer são memórias minhas, não são partilhadas com outros.” À medida que vamos envelhecendo, começam a morrer os avós, os pais, a desaparecer amigos. E tudo o que podemos contar aos filhos, ou netos, não são memórias partilhadas. É impressionante. O Manoel ensinou-me isso. Era um contador de histórias incrível. Foi uma pessoa que viveu certamente como queria ter vivido, com paixão por aquilo que fazia. E ele morreu praticamente a filmar, o que não é para todos.

Deixou-nos muitos filmes. E pensamentos: “Não há outra forma de arte que se aproxime mais da vida do que o cinema. E o cinema é também uma síntese de todas as artes – como a própria vida, que contém em si todos os aspectos”, Manoel de Oliveira (Público, 2004).
Quando o Canudo, em 1912, designou o cinema como a sétima arte, acho que não podia estar mais errado, porque o cinema não é uma arte única. O cinema é a fusão de todas as artes: a escrita, a fotografia, a pintura, o teatro, a música. Se pensarmos bem não há nenhuma profissão ou arte que seja tão agregadora da qualidade de todos como o cinema. É por isso que acho que a crítica de cinema, às vezes, é demasiado cruel. Porque todas as pessoas envolvidas tiveram uma entrega plena para fazer o melhor. E depois há uma mão cheia de filmes, que são verdadeiras obras-primas, como O Padrinho e Apocalypse Now, de Coppola, E.T., de Spielberg, Citizen Kane, de Orson Welles, que estão imbuídos desse espírito: ‘vamos contar a melhor história do mundo’. E cada filme pode ser a melhor história do mundo.

Teresa Joel