Júlio Isidro
“Tenho a obrigação e o direito de continuar”
Apresentador e locutor reconhecido por avós, pais e netos. Autor de programas, na televisão e na rádio, que marcaram diferentes gerações. Júlio Isidro ressalta o papel da memória e das tradições de um país que está na moda para os turistas, mas que precisa de preservar a autenticidade
Acolhe-nos em casa para esta entrevista. O seu cão rafeiro, o Picasso, de cinco anos, está ali presente com uma atenção e dedicação que chamam a atenção. Parece compreendê-lo e enternece-se sempre que o icónico apresentador o presenteia com olhares e festas, enquanto vamos abordado temas que encontram sempre novos caminhos ou outros voos – se preferirmos este termo, fazendo jus ao seu “vício bom” em construir aviões na sua oficina, com madeira, cola e papel. “Os aviões estão prontos para voar.” Porém, viajámos com palavras para outros destinos.
“Quarto crescente” foi o título de um programa que apresentou em tempos, na RTP, onde se divulgava a cultura portuguesa em diferentes áreas. Fazendo uma analogia da lua com as fases da vida, encontra-se em que momento? Lua nova, quarto crescente, lua cheia, quarto minguante?
A lua cheia antecede a lua nova. Em princípio, estou em lua cheia. Já percorri essas fases todas – e aconteceu-me, algumas vezes na vida, estar em eclipse [a nível profissional]. Tem-me acontecido, de vez em quando, porem-me o sol à frente. Essas não são as memórias boas, são as memórias vagas. Transformei as memórias más em memórias vagas. Mas acho que estou em lua cheia, porque o próximo ciclo é a lua nova [risos].
Recentemente, viveu uma situação preocupante, tendo passado por um internamento que se prolongou. Como escreveu Dostoiévski, é o amor que ressuscita?
Eu acho que é sempre [o amor]. Em relação à profissão, estou sempre a ressuscitar cada vez que tenho um projeto novo. Realmente passei uma curva um bocadinho apertada, não concretamente por uma intervenção cirúrgica que tive de fazer, que correu muito bem, mas por uma bicharada que anda nos hospitais. Apanhei uma bactéria hospitalar e estive mesmo mal. Já depois de estar em casa, e quando contactava com certas pessoas – e disse a muito pouca gente –, ouvia: “Olha, o meu pai também teve [a bactéria] mas morreu; o meu sogro também e morreu.” Eu sou o pai e o sogro – embora ainda não seja sogro – que, realmente, fiquei [risos].
O grupo etário dos 80 e mais anos tem vindo a crescer em sociedades com maior longevidade. Aos 81 anos, que sentidos continua a descobrir na estrada da vida, já com muitos quilómetros percorridos, ora em piso seco ora em piso molhado e escorregadio?
É verdade. Aquilo que sinto nesta fase da minha vida é que tenho a obrigação e o direito de continuar. É isso que quero da vida. Nesta fase em que estive hospitalizado dei por mim a pensar: “Será que é isto que é o fim? Se é o fim é muito mal-empregado…” [risos]. Independentemente de o meu caminho ter tido buracos que não estava à espera, pedregulhos disfarçados, pisos escorregadios – como disse, com graça –, mas também, de vez em quando, alcatrão para descansar, eu acho que teve uma grande vantagem: a minha vida foi sempre um caminho a direito. Portanto, escrevi sempre direito por caminhos que podiam ter sido tortos.
Nessas linhas retas, nas curvas e contracurvas de uma existência preenchida, quando olha pelo retrovisor, o que hoje vê com mais nitidez?
A palavra saudade é muito perigosa, porque pode conter conceitos muito diferentes e eu distingo muito bem a saudade do saudosismo. Não sou saudosista, mas tenho saudades. Devo dizer que aquilo que tenho mais saudades é da liberdade. Vivemos num tempo em que, teoricamente, vivemos em liberdade. Aquilo que tem vindo a acontecer no mundo, nestes últimos anos, é muito longe daquilo que seria o meu projeto de vida relativamente ao conceito do bem-estar. Para mim, a liberdade é o bem-estar. E o bem-estar é o estar bem – não é apenas o bem-estar financeiro e económico do bem instalado no sofá. Tenho a ideia de que a liberdade tem de trazer alegria, distensão, abraços, sorrisos como este que me está a trazer, enquanto entrevista. A liberdade, para mim, é isso tudo.
Neste momento vivemos o contrário da liberdade. Aquilo que estamos a viver é tensão, é opressão, é o ressentimento e até o despontar de uma sociedade portuguesa que está muito agressiva, muito tensa – e eu não queria isso. Uma sociedade tensa e agressiva, cheia de ressentimento, injusta – muitas vezes em relação aos outros com o reflexo de si próprios, não é uma sociedade livre. Nós só estamos livres quando estamos de peito aberto, olhos nos olhos com os outros. E o que acontece nas redes sociais é o contrário disso tudo. Hoje em dia dizem: “Percecionamos.” Não me interessa saber as estatísticas do crime violento e não violento. Aquilo que eu pressinto e sinto é que os portugueses estão desagradados – consigo próprios e não sabem com quem…
E consegue encontrar uma explicação?
A explicação não é apenas de carácter racional. O mundo é feito de ciclos. Sou muito curioso em relação ao fenómeno das Guerras Mundiais. Uma grande parte do mundo viveu o sonho de que “isto acabou; os 60 milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial vai marcar-nos para toda a vida, vai pôr-nos a cabeça no lugar, vai trazer-nos solidariedade, amizade e carinho”. Depois, passam 80 e tal anos – uma gota de água na História – e, de repente, começamos a sentir e a pressentir que há quem queira voltar. Li uma frase interessante: “Quando o fascismo volta, diz sempre que volta a liberdade, mas não é verdade.” Aquilo que eu temo em relação à minha descendência – ou decadência – está por aí, mais ano menos ano. Em relação aos netos – não só os meus, são os netos do mundo – estamos a viver um tempo muito complicado. Eu gostava de ser otimista, mas por estrutura não sou. Transmito otimismo aos outros, que é a minha função…
E o que é o Júlio Isidro?
Eu sou um pessimista alegre [risos].
Qual o papel que nos cabe no combate a esta desordem, portuguesa e mundial?
Estou a dar a entrevista mais sincera da minha vida, provavelmente. Com uma pontinha de egoísmo, direi que quero é resolver aqui o problema, o nosso problema. Mas é evidente que isto é um sistema de vasos comunicantes e tudo nos chega todos os dias. Aquilo que eu desejaria para nós é que os jovens portugueses fossem contaminados pela memória.
Por que razão acentuou “contaminados”?
Porque os mais velhos parece que tiveram problemas de memória, porque não se lembram do Portugal que foi... Mesmo com o meu desejo de que este seja um Portugal melhor – tem obrigação de ser –, é bem melhor do que o Portugal que eu vivi até aos 29 anos – e outros até mais tarde. Mas parece que tiveram um lapso de memória e estão a ter um saudosismo de uma coisa que não nos dá jeito nenhum. Nós precisamos é de andar para a frente – mas para andarmos para a frente não podemos, por exemplo, ser quase todos considerados cidadãos de segunda no nosso próprio país. Não vou apontar um governo, porque tem havido muitos – é quem manda. Não é normal para se tratar de um papel, em vez de se ir à Loja do Cidadão mais próxima, tem de se fazer uma inscrição para Santarém ou para o Cadaval, porque senão só se arranja senha aqui lá mais para a frente. Eu tenho essa experiência e quase tudo está assim por resolver. Ou seja, a nossa vida não é facilitada. Isso já não é burocracia, é a doença da burocracia.
Porque é que estas situações persistem no nosso país ao longo das décadas?
Por isso é que eu estava a dizer que não é o senhor que manda agora ou o senhor que mandou ontem ou anteontem. Acho absolutamente anormal que as orientações dadas às pessoas que trabalham nessas instituições do Estado sejam insuficientes para nos servirem. Não vale a pena falar apenas do tempo de espera do Serviço Nacional de Saúde – é que isto também dá cabo da saúde que nós temos. Sugeriram-nos, a mim e à minha mulher, irmos a uma loja de cidadão às quatro da manhã para tirar a senha. Isto simboliza tudo. Como disse Margaret Thatcher – e estou a citar uma senhora muito conservadora –, o Estado não tem dinheiro; o dinheiro do Estado é o vosso, dos vossos impostos. Dizia mais: nunca um país pode progredir se o quiser fazer somente através do aumento dos impostos dos cidadãos. Não consigo compreender como é que quem manda fique descansado por saber que há pessoas que têm de ir às quatro da manhã para tirar a senha.
Basta ligar para uma empresa e perceber que não há uma voz para falar connosco – é uma enorme desumanização. Quero ligar para um sítio qualquer e há uma voz de uma máquina que me responde. Depois não consigo desabafar, pedir um esclarecimento, porque tenho de carregar na tecla 0, 1 ou 5 para o assunto que pode ser mais ou menos o que quero.
Para onde temos de ligar para humanizar o sistema?
Não sei para onde temos de ligar – sei que, do lado de lá, não deveria haver máquinas para falar connosco. Não quero dizer que seja contra a tecnologia, mas essa tecnologia está a desumanizar-nos. A prova é que já há alguns poderes que começam a ficar preocupados com a Inteligência Artificial. E em vários países começam a ficar preocupados com a impregnação da desumanidade com as redes sociais. Agora os miúdos já vão ter mais limitações. Vamos ver de que maneira é que com a esperteza dos miúdos, com o comodismo dos pais e, provavelmente, a cumplicidade das grandes empresas, eles não vão furar esta regulamentação que surgiu agora.
Na Suécia voltaram a fazer exames utilizando a caneta e o papel. Mais uma vez é um país nórdico à frente na História a dizer: “Alto aí, isto não é para pôr cruzes.” Estes senhores já perceberam que, com um bocado de jeito, estamos a criar gente que tem curso universitário e é formalmente analfabeta. Estamos a criar muitos doutorados analfabetos.
Temos “a geração mais qualificada de sempre”…
Dizem sempre que é qualificada – é quantificável. Temos mais universitários. E jovens interessados em coisas? E em diálogos positivos uns com os outros?
Quando olhamos para a frente, podemos observar detalhes; com a visão periférica, vemos movimentos e formas. Com este conjunto visual e outros sentidos mais despertos, que capacidades foi apurando para contemplar e viver a vida com mais plenitude?
A minha razão de viver radica em duas coisas: a família e o trabalho. Eu trabalho para viver. Não vivo apenas para trabalhar. Não me entendo enquanto cidadão a não fazer nada. Levanto-me e tenho preocupações saudáveis, além de que se for remunerado, melhor ainda. Tenho a responsabilidade de alimentar o espírito da família, porque também fui um pai serôdio – é essa, essencialmente, a minha preocupação. Portanto, juntei as duas coisas. Creio que nos vários projetos que se adivinham proximamente, eu vou estar presente e a andar.
Que projetos?
O projeto mais comum é que a Mariana [uma das filhas] vai casar-se para o ano, em junho, e está a planear tudo. Esse é o meu grande projeto. Em termos profissionais têm-me acontecido, ultimamente, coisas bonitas. Fui convidado a fazer um podcast ‘Geração 40’ para o Expresso e Sic Notícias. Tenho sido muito bem tratado…
Temos vindo a falar de memória. Foi mestre de cerimónias nas últimas quatro edições da Cidade das Tradições. Este ano, vai novamente estar presente, embora apenas na sessão de abertura a 18 de setembro. Que gozo continua a dar-lhe a Cidade das Tradições?
O gozo que me dá é que na Inatel existe uma pessoa chamada Jacinta Oliveira, que teve um sonho e acho que conseguiu concretizá-lo. Ter a ideia de juntar num espaço magnífico – o Parque de Jogos 1.º de Maio – uma região do país com tudo o que tem para oferecer ao nosso conhecimento enriquece quem faz e quem visita. Ali, sim, está tudo quanto é autêntico. Na Cidade das Tradições não há plástico, há autenticidade. Portanto, essa autenticidade deve dar até uma grande alegria e ímpeto de continuar às pessoas dessas regiões. Temos um grupo folclórico, crianças a aprender a tocar instrumentos, temos uma sociedade recreativa que apresenta a peça de teatro com amadores... Felizmente, o movimento associativo continua a existir. A Cidade das Tradições recebe e dá a essa gente ânimo para continuar. É, talvez, das iniciativas mais portuguesas que se está a concretizar neste Portugal que eu desejo em grande liberdade. Dou os parabéns à Fundação Inatel por isso.
A palavra tradição vem de 'traditio', que significa entrega, passar adiante, transmitir. Que ideia tem de continuar a ser entregue aos mais novos?
São os mais velhos que têm de mostrar aos mais novos que a vida não começou no dia em que eles nasceram. Há muitas mais vidas para trás – e essas vidas para trás valorizam-nos, a nós e a eles. Mais: Portugal tem estado na moda em relação ao turismo. Estamos a plastificar um bocadinho o turismo. Estamos a descarnar as tais tradições. Quem nos visita tem de conhecer o país autêntico, os portugueses autênticos. Não somos nós que temos de arranjar modelos de atração duvidosa – muitas vezes – para que nos venham visitar. Quem nos vier visitar, tem de vir visitar o que somos e como somos.
Silvia Júlio


