Trás-os-Montes
Por territórios históricos e imaginários das festas solsticiais de inverno
Se procuramos um sentido profundo, amplo e atento para as festas de inverno que se repetem, anualmente, entre dezembro e fevereiro, com ligações ancestrais ao passado, teremos primeiro de entrar num espaço-tempo mítico, antes mesmo de avistarmos as terras do Nordeste Trasmontano
Celebrados um pouco por todo o mundo, e disseminados a partir da Europa, remontando a séculos do pré-Cristianismo, estes festejos cíclicos descobrem ritos de inversão e desordem social, de excesso, de fertilidade e regeneração, que prestam reverência à nossa ligação à terra, aos animais, à natureza, aos antepassados e aos ciclos de vida. Numa sociedade marcadamente rural, até há poucas décadas, as práticas rituais realizavam-se num tempo longo, de silêncio, de comunidades fechadas sobre si mesmas, expectantes, temerosas e inquietas, que se manifestavam através das máscaras, do riso, da transgressão e de uma relação cuidada com os mortos e as forças imprevisíveis, auspiciando a entrada para o tempo fecundo e próspero da primavera.
Num misto de fascínio e nostalgia, estas tradições foram descobertas por etnógrafos, escritores e cineastas, entre 1960 e 1970, precisamente quando se assistia ao seu declínio, motivado pelo decréscimo populacional, emigração massiva, crise da agricultura e guerras coloniais. Alguns autores são hoje referências locais, como Benjamim Pereira (Máscaras Portuguesas, 1973) e Noémia Delgado (Máscaras, 1976). Terá sido este, porventura, o primeiro movimento de autodescoberta e autovalorização destas comunidades, por intermédio de um interesse vindo do exterior.
Nas últimas décadas, face à total reconfiguração dos modos de vida, novas gerações têm testemunhado e atribuído novos significados às máscaras, fatos e elementos simbólicos que integram as festas dos rapazes, Santo Estêvão, Natal, Ano Novo, Reis e Carnaval. Revitalizadas e transformadas em “cartão de identidade” da aldeia, entre prolíficas representações de comunidade, de autenticidade, de tradição, e sob os holofotes das câmaras e a divisa da Unesco, são hoje mais de 30 as efusivas e orgulhosas festas de mascarados que emergem neste período, singulares, enérgicas e expressivas.
Ousilhão, a aldeia que está “muito à frente”
Em Ousilhão, a Festa de Santo Estêvão nunca sofreu interrupções desde há, pelo menos, 100 anos, sendo vivida com o verdadeiro espírito de comunidade, “para dentro e não para fora” do povo. Luís Meirinho participa na festa desde criança, desempenhando todos os papéis, de máscara a moço, músico, vassal e, este ano, mordomo. Ajudou-nos a perceber de que forma a transmissão destas práticas está alicerçada na afetividade, sentido de pertença, respeito pelos familiares. “As pessoas nascem a ouvir os chocalhos, as castanholas, a gaita-de-foles, e o sonho das crianças é ‘eu quero!’, porque veem o pai vestir-se, veem a mãe vestir-se, ‘eu também quero ser o Luís, que andou a tocar as castanholas, eu quero ser o Ricardo que andou a tocar gaita, eu quero, eu quero!’, e começam desde pequenos a vestir o fato e fica interiorizada esta ligação forte à festa.”
“Vestir o fato” é viver uma das personagens intervenientes na festa, cuja figuração mais notória é a do máscara, como se designa em Ousilhão, e por isso lhe chamam também a Festa dos Máscaras, ou o Natal, ocorrendo entre 25 e 26 de dezembro. São várias as figuras eleitas pela comunidade para exercerem cargos de grande significado simbólico no ritual: antes da ação do Rei e vassais, os quatro moços, na companhia dos músicos e dos mascarados, iniciam o cortejo visitando as casas de todos os moradores, cantando e dançando, para “dar as boas-festas”, sendo recebidos calorosamente com bebida e comida. Este é o momento do ano em que todas as portas estão viradas para a rua, entra-se: “Nós passamos o Natal com a nossa família que é uma aldeia inteira, almoçamos e jantamos na casa onde estivermos. (…) Nesta altura, parece que as pessoas trespassam uma barreira e todas as zangas e quezílias normais do ano ficam para trás, durante aqueles dias. É isso que nos distingue, uma união completamente diferente, estamos todos em sintonia.”
Não existe uma entidade que se responsabilize pela organização da festa, e, este ano, o povo elegeu uma mulher para exercer a função de mordomo, numa clara rutura com papéis sociais que, noutros contextos, ainda são de exclusividade dos homens. Aliás, existe a perceção distinta de que “quem manteve estas tradições foram, muitas vezes, as mulheres” considerando as vagas de êxodo rural entre 1960 e 1990. A forte participação feminina que se observa atualmente no ritual, em especial figurando o máscara, cumprindo esse desejo de igualdade social e tentativa de inversão dos efeitos da desertificação, remonta a 1972/73, a primeira vez que uma mulher “vestiu o fato”. “Eu costumo dizer que em Ousilhão estamos muito à frente do tempo. Por detrás de uma máscara não há homens, nem mulheres, nem pretos, nem brancos, nem cor-de-rosa, nem senhores doutores, nem senhores engenheiros, há uma pessoa, seja masculina ou feminina. Diz-se muito ‘Ah, isto são as tradições dos rapazes!’, mas hoje, esse simbolismo da passagem para a idade adulta não tem o mesmo peso que tinha (…) é verdade, são ritos de fertilidade, mas nós temos que nos adaptar aos nossos tempos.”
Com 98 anos, a avó de Luís foi uma dessas mulheres de garra que, na década de 1980, não permitiu que a tradição “morresse” quando, na “transmissão do poder para os novos mordomos, quase não pegaram na festa”, e foi ela que disse, “Não, aqui não morre a festa!” Grande parte dos naturais de Ousilhão vive hoje em Bragança e a aldeia subsiste com pouco mais de 80 residentes, num território do interior esquecido que, apesar da proximidade com Vinhais, carece de infraestruturas de ligação, como uma autoestrada ou um IP - Itinerário Principal, facilitadores, pelo menos, da mobilidade pendular. Consciente de que dentro de 20 anos, a população somará duas ou três dezenas de pessoas, e que este é um caminho sem retorno, Luís Meirinho tem uma visão pragmática: “Eu sei que a tradição um dia vai morrer ou vai ter que se reinventar, mas aquilo que me dá mais prazer é saber que significa algo para as pessoas. Quando a tradição deixar de nos fazer sentido, deixa de ter significado, mais cedo ou mais tarde vai morrer, aí morre!”
“Eu prometo que vou de Chocalheiro se…”
Em pleno Parque Natural do Douro Internacional, com vista sobre a Faia da Água Alta, Salamanca e Zamora, eleva-se a aldeia de Bemposta, separada das províncias espanholas apenas pelo rio. Vila e sede de concelho até ao século XVIII, com foral outorgado por D. Dinis em 1315, renovado por D. Manuel I em 1512, é a maior freguesia do concelho de Mogadouro. Pertenceu a Penas Roías, e na formação do território nacional, foi recolonizada por população oriunda de terras de Leão, por isso se fala o mirandês exatamente até à Bemposta. Este território (antigo povo Zoela), distinguido pela Unesco como Reserva da Biosfera da Meseta Ibérica, beneficiando dessa ausência de fronteiras, assume características singulares também no que respeita às práticas rituais de inverno com máscaras.
Com a intenção de revelar esses “traços comuns”, a comunidade local promove o Encontro Internacional de Rituais Ancestrais, descrito como “uma mostra viva das diferentes expressões da ancestralidade”, presentes em certas regiões da Europa e, com maior incidência, na zona transfronteiriça. No ano passado, a Bemposta recebeu 75 grupos vindos de Espanha, Itália, Bulgária, Roménia, e até do México, reunindo, em formato de desfile e animação de rua, mais de 750 pauliteiros e gaiteiros, mascarados e caretos, com trajes e máscaras impressionantes. A organização deveu-se à Maschocalheiro, com apoio de entidades locais. Numa conversa com Amélia Folgado e Vítor Gomes, dirigentes da associação, e seu sócio honorário José Pereira, eminente historiador local, a que se juntou António Martins, presidente da junta de freguesia, conseguimos identificar a Bemposta como um ponto de interesse no mapa. “Esse encontro serve para divulgar o nosso Chocalheiro e outros mascarados de culturas diferentes. De Trás-os-Montes a Espanha, e para baixo, da Estremadura às Beiras, há rituais que, apesar de remontarem ao pré-Cristianismo, se mantiveram tanto tempo, com tantas semelhanças entre si, a mesma essência, partilham os elementos que representam, no ciclo da vida, da morte, do renascer e voltar.”
O desejo de dar a conhecer outros rituais ao povo da aldeia, liga-se com o motivo de descentralização e de abertura ao exterior: “Se centralizarmos, levando a cultura à cidade, então a cidade nunca virá ao interior. (…) Com este evento, queremos dinamizar o território, divulgar a nossa terra, que está aqui num cantinho, muito desertificada e esquecida.” Neste dia, a povoação abre-se a todos, procurando cativar aficionados, interessados e curiosos, locais, nacionais e internacionais, e beneficiar da atratividade mediática de um evento anunciado como único na sua “magia e profundidade”, nos “mistérios” e na “força das tradições que atravessam gerações”.
O Chocalheiro da Bemposta é o anfitrião do desfile e participa em encontros similares, nacionais e internacionais, como ícone enigmático da aldeia. Mas, para estas saídas, foi esculpida uma nova máscara (Carocho) e confecionado novo fato (Mangão), para não transpor os limites da sua ação ritual, que acontece a 26 de dezembro, dia de Santo Estevão, e 1 de janeiro, Ano Novo. Essa indumentária, pertença comunitária, fica à guarda da igreja durante todo o ano, e apenas nestes dois dias percorre a freguesia, acompanhado de um acólito e dos mordomos, a recolher esmolas para Nossa Senhora e o Menino. Assumindo uma natureza fantástica, com exibição clara dos atributos do diabo, apresenta-se como verdadeira entidade sombria e perturbante, temida e fascinante, em toda a sua carga simbólica, sobretudo na máscara, com uma fértil justaposição de elementos simbólicos: salamandra, dentes de javali, serpente, chifres, laranja, barbicha de bode, bexiga de porco e chocalhos. O direito de a usar é licitado por somas avultadas, em cumprimento de uma promessa, e com grande secretismo. Nessas manhãs frias, muito cedo, envolta nas brumas, a sua presença assustadora impõe-se, ao mesmo tempo que as suas ações, permitidas por exceção, o colocam fora das leis sociais, como elemento de diálogo com o divino, capaz de neutralizar forças obscuras, num vago sentido de proteção da comunidade.
É entendimento comum, que a festa sobreviveu por ter sido cristianizada, e ambas as liturgias, cristã e pagã, convivem agora, complementando-se. Reconhecida como uma “tradição milenar, genuína e enraizada” localmente, parece ter também o poder de nos transportar no tempo: “É como se fosse uma máquina do tempo que abrimos, e ‘Olhem, há mil anos tal como o conhecemos, está a acontecer agora!’
Somos todos Caretos
De carácter exclusivamente pagão, o Carnaval vive da transgressão e dos excessos imprescindíveis, bebidos aos litros, incorporados, em Podence, na figura do Careto, que surge após o “ciclo dos 12 dias”, aos pulos e em correrias desordenadas pelas ruas, libertando-as com o som dos chocalhos, invadindo adegas, realizando roubos rituais. Esta exibição desenfreada, exprime-se sexualmente no comportamento que lhes é mais característico, “chocalhar” as mulheres com movimentos ritmados de anca. Noémia Delgado filma esta festa em 1975, registando três mascarados a saírem naquela terça-feira, como que a anunciar um fim próximo.
Fundador e presidente da Associação Grupo de Caretos de Podence, António Carneiro tinha então 10 anos e recorda saudosamente este período, pois foi a valorização positiva exterior à comunidade, atribuída por uma elite intelectual e artística influente, que motivou a vontade de reacender a tradição localmente, traduzindo-se num auto-reconhecimento positivo. A recente classificação internacional como Património Cultural Imaterial da Humanidade, vem reforçar essa autoestima, a partir de 2019: “Os Caretos eram mal vistos, como marginais, bêbados, a Unesco limpou essa imagem negativa, e agora somos todos Caretos no território de Macedo. Por exemplo, emigrantes que vinham, comentavam, ‘Hiiiii, como é que a nossa aldeia consegue ser reconhecida e a este nível mundial?’”
Situada na fronteira entre a Terra Quente e a Terra Fria, a aldeia e os seus Caretos iniciaram esta caminhada de visibilidade e valorização exterior logo após a abertura democrática do país, quando se começam a esboçar dinâmicas associativas impulsionadas por mediadores locais eruditos, apaixonados pelas expressões de cultura popular, fortemente envolvidos na sua preservação e exteriorização, segundados pela comunicação social local e regional. “A primeira saída fora do seu habitat foi em 1985, a convite do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC), porque até aí o Carnaval era virado para dentro da aldeia. Tinha chegado o momento de levar esta tradição para fora de portas, era importante na altura. Eu acredito que, se não tivesse ocorrido essa mudança, se calhar hoje não havia Caretos em Podence.”
A década 1990 será marcada por convites internacionais, onde se vai aprimorando a dimensão performativa das atuações, agora em representação da “cultura portuguesa”, enquadradas em “eventos” que potenciam a encenação espetacular do “autêntico” e o interesse pela cultura como objeto de consumo, recurso da indústria turística (bem patente em revistas, brochuras e livros ilustrados com fotografias de muita qualidade). Por outro lado, é dada oportunidade ao povo de Podence de também beneficiar desses programas organizados, até aí inacessíveis: “Em 1997, através do INATEL, fomos representar Portugal no 5.º aniversário da Disneylândia, em Paris, e em 1998, voltámos lá. Fomos 40 pessoas daqui da aldeia, batismo de voo, hotel de 4 estrelas, tudo isto motivou o maior envolvimento dos homens.”
Atualmente, é a aldeia de Podence que recebe visitantes e proporciona um programa turístico para todas as idades, aproveitando a localização privilegiada junto à Albufeira do Azibo, a 30 km de Bragança, fazendo confluir pessoas de todo o país e do mundo ao “Entrudo Chocalheiro”, alcançando uma dimensão de “emblema nacional”: “Durante os quatro dias temos para cima de 50 000 pessoas e o alojamento disponível na região, num perímetro de 100 km, fica lotado. Num domingo à tarde, chegaram a estar 70 autocarros estacionados no parque. Desde as nove da manhã, são pessoas a entrar e sair, vindas de todo o lado.”
Os ecos dos diversos discursos testemunhados sobre Trás-os-Montes e seus mascarados perduravam à chegada a Lisboa, convocando um território histórico e imaginário, desenhado por memórias de um passado distante e em camadas sobrepostas de novos significados.
Sofia Tomaz


