Elsa Logarinho

“A imaginação é essencial…”

 

Cientista, 53 anos, natural de Leça da Palmeira, Matosinhos, licenciada em Bioquímica, doutorada em Ciências Biomédicas pela universidade do Porto, docente universitária, investigadora 


Dedica-se inteiramente à investigação, no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), no Porto. No final de 2025, recebeu uma bolsa de dez milhões do Conselho Europeu de Investigação para estudar o envelhecimento, no âmbito do projeto científico internacional CenAGE.

Quando solicitámos um tempo para conversar, apesar da sua ocupada agenda, generosamente abriu uma janela Zoom, para nos revelar que costuma “comparar um cientista com um artista”, e antevê que “dentro de uma década possamos começar a falar de vacinas antienvelhecimento”.

No fio do tempo, entre as nossas memórias dos anos 80, emergem imagens de uma entrevista ao neurobiologista e filósofo, Henri Laborit, num canal de televisão francesa, sobre a biologia do comportamento humano. Entre a vasta obra publicada, selecionámos Elogio da Fuga (Edições 70), para partilhar pensamentos do autor com a nossa entrevistada.

“A única herança que conta não é a herança familiar de bens materiais ou de tradições e valores mutáveis e discutíveis, mas a herança humana do conhecimento (Laborit).” Sentiu o efeito do reconhecimento do Conselho Europeu de Investigação com motivação e mais adrenalina?
Exatamente essas palavras. A vida de cientista tem de ser pautada por muita resiliência. Na verdade, a minha grande motivação é a curiosidade, a força motriz de toda esta profissão. Quando atingimos este patamar, neste caso, esta bolsa que tem muito prestígio a nível europeu, e tem a particularidade de financiar ciência fundamental (ciência voltada para a busca de conhecimento sem ter a necessidade de justificar a aplicação desse conhecimento), para mim foi “a dream come true” [um sonho realizado]. Agora vou conseguir ter uma sustentabilidade financeira para executar a minha criatividade e testar as minhas ideias. Por isso, a motivação é máxima. E ter esta adrenalina, como disse, para conseguir colocar em prática as ideias.

E, como refere Laborit, contribuir para a “herança do conhecimento”.
Sem dúvida. Por acaso, costumo dizer muito isso, porque tenho três filhos e passo-lhes muitas vezes esta ideia: “A única coisa que ninguém nos pode tirar, de facto, é a nossa sabedoria, o nosso conhecimento.” E acho que tudo aquilo que motiva esta construção de conhecimento é absolutamente essencial para a sociedade.

“Repeti muitas vezes que a característica que me parece essencial do funcionamento do cérebro humano é a sua faculdade de imaginação, aquela que o torna capaz de criar estruturas novas” (Laborit). De que modo as emoções da descoberta e permanente desafio têm impacto na investigação científica?
A imaginação é essencial porque se uma pessoa quer uma descoberta que seja disruptiva não pode ir atrás de paradigmas. A minha formação, e a minha forma de estar, como cientista, passa muito por questionar tudo. E ao questionar devemos sempre tentar evitar ideias preconcebidas. Curiosamente, segui o trajeto das Ciências, mas é verdade que tinha uma paixão muito grande pelas Artes. De certo modo, poderia ter seguido outra formação académica… Eu costumo comparar um cientista com um artista. Acho que a fórmula que é comum a estes dois perfis tem de ser a imaginação, e testar essa imaginação. Por isso, cruzo estes dois gostos que tenho. Vejo muito o perfil do cientista como o perfil do artista.

Qualquer cientista tem um lado de artista?
Tem de ter. [Risos]

“Todos os dias, no nosso organismo, há células que nascem, vivem e morrem, sem que por isso o nosso organismo deixe de viver. Cada célula, durante a sua curta vida, cumpre a função que lhe é atribuída integrando-se na finalidade do conjunto. Não ficamos tristes com a sorte reservada a estas células passageiras. Por que razão devemos ficar tristes com a sorte dos indivíduos que contribuíram para a já longa evolução da espécie humana?” (Laborit).
É um ponto muito interessante que passa pela definição do organismo, passa pela definição da sociedade e de ecossistema. Nós, de facto, temos de nos ver como um todo, onde cada unidade contribui para esse todo. E, nesta área do envelhecimento, em que estou a trabalhar, sabemos que é verdade que a duração do organismo não coincide com a duração de cada unidade que temos no nosso organismo – a célula. Mas, o conjunto é sempre diferente do que a soma de cada parte. Acho que este pensamento da Biologia que é tão demonstrado na biologia do organismo e na interação do ecossistema, se pensássemos mais vezes nesta fórmula, e a aplicássemos em termos sociais, tínhamos a fórmula vencedora.

Em 2019, na página ‘ciênciaviva.pt’, escreveu: “Estudo o envelhecimento das células e do seu material genético [...] O objetivo é conseguir modelar esses mecanismos de modo a atrasar o envelhecimento ou torná-lo mais saudável. Conseguiremos vir a envelhecer bem, como o vinho do Porto?” Decorridos cerca de sete anos estamos mais próximos do segredo do vinho do Porto?
Sou muito otimista, vou sempre atrás dos meus sonhos e acredito que é possível concretizá-los. Passados sete anos, penso que progredimos muito na forma com que poderemos trabalhar o desafio do envelhecimento. Entendo que o envelhecimento pode ser atrasado, sobre isso, já há evidência científica. Ainda questionável até que ponto poderá ser revertido. Mas, isso não é a principal questão, porque só atrasar é já uma boa evidência. Nestes últimos anos, sinto que se gerou muita evidência científica. E que se encontrar um bom caminho, se vir facilitada a parte translacional, vejo que no futuro consigamos colmatar muitas das dificuldades com que nos temos vindo a deparar nas populações envelhecidas. A esperança de vida aumentou. Década a década fomos conquistando essa esperança de vida.

Atualmente, segundo dados das Nações Unidas, a Europa tem a maior percentagem da população com 60 anos ou mais (25%). Portugal é um dos cinco países mais envelhecidos do mundo.
Sim, Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, e com muita incidência de comorbidades nas últimas décadas de vida. Há outras sociedades no mundo, nomeadamente no Japão, com uma população tão envelhecida como a nossa. Mas, tem uma longevidade mais saudável. E nós temos um fator que nos tem ajudado, ou ia ajudando, que é a nossa dieta mediterrânica. Porém, com a globalização tem vindo a ser estragada. Isto para dizer que nós conseguiríamos que as últimas décadas de vida pudessem ser isentas de tantas doenças. Todas as doenças crónicas que aparecem com o envelhecimento, de facto, são causadas pelo envelhecimento. Mas, também sabemos que há um lobby muito grande, de todas as indústrias farmacêuticas, para ter cura de doenças. 

Podemos dizer que precisam de doenças?
Sim, sem dúvida. À data de hoje, já poderíamos estar muito melhor do que o que estamos, porque ao fazer intervenções que atrasam o envelhecimento, estamos a atrasar a incidência dessas doenças crónicas. Como se vê algo preventivo na incidência de doenças, não tem um interesse económico tão forte que valide a sua popularidade e a translação para a prática clínica. Ainda há outro aspeto, como o envelhecimento não é doença, o seu tratamento também não está devidamente protocolado. Portanto, isto dificulta a prática clínica de algumas terapias de antienvelhecimento que já poderiam estar disponíveis.

Nas últimas décadas fala-se muito em antienvelhecimento…
Há essa consciência de que se queremos tornar os nossos cuidados de saúde sustentáveis, temos de melhorar a longevidade saudável. Há muitos produtos que poderão surgir no futuro próximo, obviamente com a toda a validação científica. Antevejo que dentro de uma década possamos começar a falar de vacinas antienvelhecimento, de modeladores de envelhecimento. Há já muitos fármacos que estão em ensaios clínicos (rapamicina, metformina, senolíticos, por exemplo) que poderão ser protocolados e introduzidos na prática clínica.

Envelhecemos porquê?
O envelhecimento caracteriza-se pela acumulação de danos celulares que ao longo dos anos leva a uma deterioração do funcionamento de órgãos e sistemas. Estes danos acumulam-se ao longo da vida, pelo que em idade jovem já se deve prevenir esta acumulação e modelar o envelhecimento. É importante que as pessoas tenham esta consciência. A biologia do envelhecimento devidamente transmitida ao público, em geral, também traz a consciência do quanto social e politicamente podemos intervir com uma população alvo de todas as faixas etárias. Nós sabemos que durante o período gestacional, uma mãe que tem todo o cuidado durante uma gravidez, tudo isso são memórias que vão ficar naquele feto e determinar a velocidade com que vai envelhecer na idade adulta. Gosto muito de falar para todas as plateias. E, sobretudo, em idade jovem onde a modelação poderá ser mais importante, mais eficaz. 

Quando decidiu focar-se no estudo das células do envelhecimento, pressentiu que a sua investigação era uma urgência?
Na verdade, não. Sempre gostei de Biologia. E sempre gostei de estudar o organismo em homeostasia [estado normal]. Mas, depois, comecei a perceber que a homeostasia se vai deteriorando com a idade. Inicialmente, os meus estudos eram focados só em células. Fui das primeiras pessoas a filmar, em tempo real, fibroblastos da pele humana de diferentes idades, e comecei a ver que o ritmo era muito diferente. Fui atrás dessa curiosidade, a pele não se regenera à medida que vamos envelhecendo, e encontrei um gene (que tem sido o foco do meu grupo), ao qual as pessoas começaram a chamar o “gene da longevidade”. Uma cópia extra deste gene no modelo de ratinho permite uma extensão da longevidade em 25%. Este trabalho foi reconhecido pelo prémio internacional Maximom Longevity Prize, em 2022.

Conquistou também o Prémio Pfizer, em 2011, e o prémio de investigação atribuído pela Sociedade Portuguesa de Genética Humana, em 2022. O seu grupo de investigação foi distinguido pela Progeria Research Foundation, com uma bolsa para o combate a uma doença rara de envelhecimento precoce em crianças. E, agora, reconhecido com mais uma bolsa no âmbito do CenAGE. Quando olha para a menina que fez uma visita de estudo ao Hospital Universitário de São João, compreende por que razão este era o caminho?
Sim, compreendo. Esse momento foi marcante. Estava no 9.º ano e muito indecisa em escolher o que seguir. Era boa aluna, tirando Educação Física, que nunca foi o meu forte [risos], mas estava dividida em Artes e Ciência. No contexto da disciplina de Saúde, a nossa professora, levou-nos ao serviço de Genética onde fazem análises pré-natais. Quando vi os 46 cromossomas da espécie humana fiquei apaixonada por aquelas fotografias. E disse: “Eu quero trabalhar com o material genético, com cromossomas, e perceber a regulação do genoma humano.” Isso foi decisivo.

Desde 2017, lidera o grupo de investigação em Envelhecimento…
O grupo chama-se Envelhecimento e Aneuploidia – este termo, que poucas pessoas sabem, significa a alteração do número de cromossomas que caracterizam uma espécie, ou seja, quando há cromossomas a mais ou a menos. As células cancerosas, por exemplo, são tipicamente aneuploides, porque têm o número de cromossomas todo alterado. Recentemente, o meu grupo também trabalha com a síndrome de Down, a única aneuploidia que é viável no humano até à idade adulta. O que agora verificámos é que estes pacientes, com toda a atual intervenção médica, estão a chegar a uma idade adulta que podem atingir os 65 anos de idade, embora com uma característica de envelhecimento prematuro.

Passando da célula para a música, numa entrevista disse: “O meu estilo musical favorito é o post-punk, obviamente determinado pela minha adolescência nos anos 80”. E referiu Joy Division, Nick Cave, Cocteau Twins, entre outros, salientando The Sound. Curiosamente, por perto, temos o disco vinil, From the Lions Mouth, cuja capa tem a reprodução de uma pintura a óleo, Daniel na Cova dos Leões, 1872, de Briton Rivière.
Ah, The Sound! Maravilhoso! Até estou arrepiada… adorei a surpresa! [largo sorriso] A capa desse disco revelou-me sempre coragem, uma virtude que aprecio muito no ser humano.

E revela serenidade para enfrentar as feras desta vida.
Sim, é verdade.

António Damásio, no mais recente livro, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, diz: “O espantoso espetáculo global da nossa mente continua a ser o maior espetáculo do mundo.” Concorda?
Muitas vezes, nós, cientistas, achamos que o que é racional é mais biológico. A parte emocional não é mensurável. Mas, é curioso, começa a haver muita evidência científica do quanto a parte emocional se reflete na nossa biologia, e de que pode traduzir-se numa métrica. As pessoas têm muita tendência para acreditar naquilo que conseguem medir. Na área do envelhecimento, começo a encontrar muita evidência que passa pela componente emotiva – os afetos, o estímulo emocional, o desenvolvimento num contexto de amor, sociedade, amizade – isso dá uma métrica na velocidade com que envelhecemos. De facto, é a nossa mente que comanda isto tudo.

Teresa Joel