História

“O Teatro de Lisboa”

Situado numa das zonas mais antigas de Lisboa, entre o Chiado e o Bairro Alto, o Teatro da Trindade INATEL foi construído em pleno séc. XIX, quando o centro social e cultural da cidade se situava exatamente nesta área. Testemunho dessa época, o Trindade transporta consigo a memória de um tempo em que a burguesia alfacinha ia às soirées ao Chiado, a um dos três teatros que ainda hoje se mantêm nessas poucas ruas: o S. Carlos, o S. Luís (então chamado rainha D. Amélia) e o Trindade. Mas, provavelmente devido à novidade e aos requintes e decoração e apetrechamento, que incluíam um engenhoso sistema de ventilação da sala e uma plateia que podia subir até ao nível do palco e assim permitir a realização de bailes, o Trindade rapidamente se transformou no teatro mais chique da capital, tal como Eça de Queirós o retrata nos seus romances.

Implantado no local onde, antes do grande terramoto de 1755, existira o Palácio dos Condes de Alva e funcionara a Academia Trindade - a primeira tentativa conhecida de implantar um Teatro Popular de Ópera em Lisboa - o Teatro da Trindade deveu a sua existência à iniciativa do empresário, homem de letras e diretor teatral Francisco Palha (1824-1890). Foi ele que, em 1866, constituiu uma Sociedade destinada à construção do novo teatro, que viria a ser desenhado pelo arquiteto Miguel Evaristo de Lima Pinto. No Carnaval de 1867 abriu ao público o Salão da Trindade, uma sala de bailes, concertos e conferências anexa ao Teatro e, em 30 de novembro de 1867 o Teatro da Trindade propriamente dito, numa estreia de gala a que esteve a família real para ver a nata dos atores da época representar um drama (“A Mãe dos Pobres”, de Ernesto Biester) e uma comédia (“O Xerez da Viscondessa”).

Desde então, a história deste teatro está ligada a alguns dos acontecimentos culturais mais marcantes na cidade de Lisboa: foi no salão da Trindade que, em 1879, foi apresentado aos lisboetas o fonógrafo de Edison ou o relato do explorador Serpa Pinto sobre a sua travessia de África, foi aqui que atuaram, anos mais tarde, intérpretes do calibre do violinista Sarrazate e do pianista Viana da Mota (que no Salão da Trindade deu o seu primeiro concerto público, com apenas 12 anos de idade), foi ainda neste salão que, a partir de 1909, se apostou forte na exibição de cinema, sendo de registar, em 1914, a exibição daquela que foi considerada à época a superprodução, "Quo Vadis", de Enrico Guazzoni (1912).

Em 1921, após a aquisição do edifício pelo Anglo Portuguese Telephone Company, o Salão da Trindade foi demolido, já o Teatro teve sorte diferente, embora todo o recheio original tenha então sido desbaratado. Deve-se ao empresário José Loureiro, que negociou com a companhia inglesa dos telefones a aquisição do Teatro, o segundo fôlego do Trindade e o seu reequipamento, o que permitiu que, em 5 de fevereiro de 1924, a sala reabrisse ao público com um aspeto “mais lindo e mais belo do que nunca”, como considerava o Diário de Notícias.

O palco do Trindade voltou então à vida para receber uma vez mais, como sempre aconteceu ao longo da sua história, a nata dos atores portugueses: sendo infindável o rol dos que pisaram estás tábuas. Ppodemos citar os nomes dos atores Tasso, Izidoro, Rosa Damasceno, Eduardo Brasão, Palmira Bastos, Vasco Santana, Beatriz Costa, Luísa Satanela, Estêvão Amarante, António Silva, Costinha, Irene Isidro, Chaby Pinheiro… para não falar de todos os nomes de atrizes, atores e encenadores nossos contemporâneos que admiramos e respeitamos e que passaram, sem exceção, por este palco… e de todos os injustiçados por esta enumeração cujas vozes fazem ainda vibrar a alma mais íntima do Trindade, desde a sua fundação em 1867.

Desde sempre, o Trindade esteve associado à apresentação de fantasias teatrais e teatro musicado: das mágicas, operetas e zarzuelas que fizeram furor no final do século XIX às revistas dos anos 30, dos “Bailados Portugueses Verde Gaio”, na década de 40, à aposta mais erudita da “Companhia Portuguesa de Ópera”, que entre 1963 e 1975 esteve sediada neste teatro, o Trindade e a Música sempre tiveram uma relação próxima - pelo seu palco passaram também nomes como os do pianista e compositor Paderewski, os tenores Tito Schipa e Tomas Alcaide, Astor Piazzola, Maria João Pires, Josephine Baker, Gilbert Bécaud, Amália Rodrigues…

Mesmo se, desde a década de 40, este teatro se tornou sede de algumas das mais importantes companhias de teatro em Portugal, albergando, por exemplo, “Os Comediantes de Lisboa”, o “Teatro d’Arte de Lisboa” ou o “Teatro Nacional Popular”, foi precisa outra transação, em 1962, desta vez para a posse da FNAT (Fundação Nacional Para a Alegria no Trabalho), uma instituição estatal, para garantir ao Trindade a sobrevivência até à atualidade, ao contrário de muitos outros teatros de Lisboa.

O espaço que temos hoje, dividido em vários locais de exibição de espetáculos e outros eventos – Sala Carmen Dolores, Sala Estúdio, Salão Nobre, ODD - Bar do Trindade com uma decoração a azul e ouro assinada por Maria José Salavisa em 1967, é fruto essencialmente dessa aquisição e dos esforços que o INATEL (Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores), que desde 1975 herdou o património da FNAT, tem feito ao longo das últimas décadas para preservar, dinamizar e revitalizar o Teatro da Trindade INATEL.

Hoje, esta sala, com uma capacidade para 453 espectadores, constitui o exemplar de teatro à italiana do país mais bem preservado, com uma estrutura praticamente virgem de elementos de cimento em ferro, o que lhe permite manter uma acústica única, e uma maquinaria de cena (tablados, teia, máquinas de efeitos especiais) que constitui um património ímpar em termos de arqueologia teatral em Portugal.

Se juntarmos a isto o facto de se tratar de um dos mais ativos teatros da capital, conjugando a apresentação de nomes consagrados com as apostas mais jovens, experimentais ou ousadas, com que nos situamos permanentemente no movimento do mundo à nossa volta, podemos apresentar orgulhosamente o Trindade como uma pérola preciosa que usamos todos os dias e que por isso mesmo não morre: 150 anos após o seu nascimento, o Teatro da Trindade INATEL continua a ser, mais do que nunca, O Teatro de Lisboa.