Esta noite grita-se

18 JAN - O PATO SELVAGEM
15 MAR - O TIO VÂNIA
24 MAI - UM HOMEM É UM HOMEM

SEX  17:00
Leituras
Sala CARMEN DOLORES

 

O Esta noite grita-se é uma iniciativa de leitura pública de textos de teatro que entra agora na sua 3ª temporada, tornada festim. Um festim que celebra o lugar da palavra no espectáculo teatral, o seu som, a sua musicalidade, o seu sabor, o seu cheiro.
Começámos informalmente, no início de 2017, no Bar Irreal e na Fábrica Braço de Prata, tentado mostrar o nosso entusiasmo com a leitura crua dos textos, evidenciando o potencial do texto dramático sem recurso à encenação. Tentámos ouvir de perto as palavras dos autores, procurando, talvez, uma maneira diferente de dizer e fazer escutar. Estas leituras não obedecem por isso ao cânone de “leituras encenadas”. Queremos partilhar com o público o entusiasmo que um actor sente quando, nos ensaios de mesa, começa a descobrir os cantos e recantos do texto. Quando os diferentes significados começam a emergir e as personagens a ganhar forma dentro da cabeça, surgindo, ainda rudes, na voz dos actores. Sabemos que um texto teatral, apresentado desta forma, é criatura frágil, desconfiada, ambígua por vezes. Mas antes assim, assumimos o risco, preparamos cada texto em conjunto com os actores e levamo-lo à cena exactamente quando temos tantas dúvidas que as precisamos de partilhar com o público.
Este ano decidimos crescer. Contamos agora com a leitura de 6 textos na nossa programação principal, em diversos espaços de Lisboa, algumas visitas a Montemor-o-Novo, uma festa de abertura e o convite à participação da Escola de Mulheres, com a sua Da Voz Humana.
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O PATO SELVAGEM

Texto: Henrik Ibsen
Tradução: Gil Costa Santos e Ragnhild Marthine Bø
Direcção: Miguel Maia e Filipe Abreu
Interpretação: David Pereira Bastos, Filipe Abreu, José Neto, Mia Tomé, Miguel Sopas, Paula Fonseca, Paulo B., Rita Cabaço e Tomás Alves

Escrito em 1884, O Pato Selvagem é uma das mais impressionantes peças escritas pelo dramaturgo norueguês. Um texto de elevado valor alegórico, usa como base a história do pato selvagem que, ao ver-se ferido, mergulha no lago e agarra-se às algas nas profundezas para morrer, evitando sobreviver ferido.
Mostra-nos uma complexa teia de relações entre duas famílias, e a sombra que um passado mal resolvido faz emergir sobre personagens multifacetadas, profundas e magistralmente guiadas através das cenas num crescendo emocional. Ibsen explora com mestria o tema da verdade e da mentira e a forma como ela é usada na esfera íntima. É, aliás, aí que reside o principal elemento trágico: as consequências de vivermos na mentira, ou os problemas do fundamentalismo da verdade absoluta - ambos podem ter, afinal, consequências desastrosas.

Duração 1h45min | Classificação etária M/14
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O TIO VÂNIA

Texto: Antón Tchékhov
Tradução: António Pescada
Direcção: Miguel Maia e Filipe Abreu
Interpretação: Catarina Wallenstein, Elsa Galvão, Érica Rodrigues, José Wallenstein, Nuno Nunes, Paulo Pinto, Pedro Gil, Sara Carinhas e Miguel Maia

Este texto, de 1894, centra a personagem de Ivan (tio Vânia) no seio de uma família que habita uma decadente propriedade rural russa nos finais do século XIX. A enorme casa de campo é pano de fundo para a asfixia de Ivan, frustração por uma vida passada sem concretizar nenhum dos seus sonhos nem de se afirmar perante a realidade dos factos. Projecta-se na juventude de Helena, paixão impossível e disputada por Astrov, médico e amigo da família, também ele assombrado pelo passado perdido e pelo desânimo perante um futuro incerto. Espelhando a decadência da sociedade russa daquele final de século, Tchékhov surge com uma escrita simples e despojada, que ainda nos nossos dias ressoa e nos faz pensar que talvez os 120 anos que, entretanto, se passaram não tenham mudado muitas daquelas que são as nossas preocupações face ao futuro.

Duração 1h35m | A classificar pela CCE
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UM HOMEM É UM HOMEM

Texto: Bertolt Brecht
Tradução: António Conde
Direcção: Miguel Maia e Filipe Abreu
Interpretação: António Mortágua, Bruno Bernardo, Isac Graça, Nuno Pinheiro, Patrícia Deus, Rita Loureiro, Rui Neto, Telmo Mendes, Teresa Sobral e Vitor d'Andrade
É uma das mais enérgicas críticas sociais por parte do dramaturgo, conhecido pelo constante questionar dos alicerces do fazer teatral e do recentrar da sua função política. No texto fala-se de desumanização e normalização. A história situa-se numa possível colónia inglesa na Ásia (mas que bem podia situar-se na Europa dos anos 40), em que o povo é maltratado e diminuído pelas forças ocupantes. Galy Gay, estivador que vive com a sua mulher, sai de casa para ir comprar um peixe para o jantar, para nunca mais retornar. Num tom de comédia quase burlesca, Brecht apresenta-nos uma série de questões sobre o que define um homem e a sua individualidade: o que será preciso para que um homem passe a ser outro homem? Em que ponto é que alguém deixa ser esse para se tornar outro? De que forma o contexto em que nos inserimos nos transforma? Galy Gay é um homem que não sabe dizer não.

Duração 1h45min | A classificar pela CCE