2 º Esquerdo
16 fevereiro a 5 março . M12
quinta a sábado - 21:45 | domingo - 17:00

Um corredor, portas dum lado e do outro, casa desengonçada e enviesada. Cozinha à esquerda que não pode ser usada pelos hóspedes, casa de banho à direita que é de todos. Dona Josefa dorme à esquerda, na zona que é só dela.
Samuel chega sempre tarde, a altas horas da noite, depois de dar corpo ao corpo de baile de espetáculos de Revista e Cabaré da cidade.
Ela levanta-se às 7 da manhã para limpar escritórios.
Ela sexagenária portuguesa…
Ele, 20 anos, acabado de chegar de Angola…
Como vivem? Como se adaptam? Como se transformam…?
Este espetáculo mostra a vivência e convivência destas duas pessoas, tão díspares como contraditórias entre si. Vemos este trabalho como um valioso testemunho vivencial duma história da globalização, dum verdadeiro “encontro de culturas” no seu ambiente mais íntimo, que é o habitar o mesmo teto.
Este espetáculo foi elaborado a partir de situações reais, testemunhadas e vividas, por um terceiro cúmplice - o próprio ator do espetáculo, que quis fazer delas um objeto artístico de partilha.
 
“2.º Esquerdo –Um teto para dois mundos é um espetáculo sobre o que é ser africano e sobre o que é ser português. Sobre o que é ser africano em Lisboa nos anos 90: uma realidade nem tanto assim diferente do que é ser africano em Lisboa hoje (…) E sobre o que é ser português, em Lisboa ou em qualquer outro lugar de Portugal, nos anos 90 ou em 2017: pois há na personagem interpretada magistralmente por Anabela Mira o lastro denso de um velho país: preconceito, contradições, mas também um sentido antigo do que é ser humano e viver com os outros, (...) – e ainda a magia dos mais simples momentos de encontro entre as pessoas de idades e cabeças diferentes.
Porém, ao contrário do que sucede com linhas estéticas mais convencionais do atual teatro documental (um género em grande expansão na Europa, demonstrando a que ponto no teatro de arte cabe também a história recente dos países e das suas pessoas), 2.º Esquerdo –Um teto para dois mundos lança mão da experiência de cruzamento de linguagens cénicas que o grupo Crème de la Crème tem vindo a desenvolver ao longo dos anos. Um teatro mais representado que falado, mais «brincado» que narrado, com elipses, música, humor e poesia.
Uma composição de grande expressionismo teatral que consegue uma proeza mais: fazer um retrato superlativamente divertido e de grande justeza de um fenómeno significativo, mas em que o teatro nem sempre repara com tamanha acuidade: o de pessoas que existem numa realidade justaposta ao tempo do progresso, como é o caso da Dona Josefa, vinda de um outro país e de um outro mundo sem nunca ter saído do seu bairro”
Sarah Adamopoulos, escritora e jornalista
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Encenação: Hugo Gama
Interpretação: Anabela Mira e Pacas
Banda sonora: Nuno Cintrão
Espaço cénico / Figurinos: Paulo Robalo
Desenho de Luz: Jochen Pasternaki
Operação e Montagem:  Mário Pereira
Vídeo: Leandro Guterres 
Câmara: Davide Marchetta 
Design: Francisco Vaz da Silva
Produção Executiva: Eduardo Henrique
Produção: Créme de la Créme